quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Voto de Pesar apresentado pela Bancada do Partido Socialista de Mêda na Assembleia Municipal no dia 21 de Dezembro de 2010

Voto de Pesar, apresentado pela Bancada do Partido Socialista de Mêda na Assembleia Municipal no dia 21 de Dezembro de 2010 – Aprovado por unanimidade.


No passado dia 24 de Outubro faleceu o Sr. Padre José Maria de Lacerda, nascido a 1 de Abril de 1917, tendo portanto 93 anos de idade.

Não era um homem da terra, mas que chegou à terra muito novo.
Chegou simples, mas com dignidade no seu tempo.
Viveu simples e com parcos recursos.
Morreu simples e pediu para o enterrarem com os pés descalços.
A sua acção estendeu-se desde a Pastoral Religiosa, à intervenção Social, ao Ensino e Cultura.

Na sua pastoral religiosa divulgou a fé em Cristo, os princípios do catolicismo com racionalismo e com rigor. Pregava a Fé mas não alinhava em práticas de muito folclore, combatia o obscurantismo, a bruxaria, “as rezas” os defumadouros e não se lhe conhecem práticas de exorcismo. Catequizou e organizou o seu ensino aos mais jovens.

Era assíduo nas suas práticas da missa, dos terços e novenas. Esteve presente nos baptizados, nos crismas, nos casamentos e na morte de várias gerações. Conheceu todas as casas da Vila, todos os casais, sua composição e seus modos de vida. Poucas casas não eram visitadas. E se não era recebido era por que o não queriam ou por que ele não concordava com o modo de vida das pessoas em causa. Não era muito adepto da Fé transformada em actos de folclore.

A sua acção social notou-se: Liderou o movimento da Caritas, no após guerra. Roupas e comida foram distribuídas por casais de menos recursos. Construiu as primeiras casas para pobres no bairro do Barrocal. Recebeu crianças refugiadas no após guerra. No Patronato deu de comer a alguns mais desfavorecidos. Com as suas expensas educou vários jovens.

Levou a cabo a organização do Patronato onde funcionou o ensino pré-escolar nos anos 50 e foi escola de formação feminina em trabalhos manuais, costura, preparação para vida doméstica e práticas de higiene e limpeza. Lançou os movimentos da Acção Católica, da Juventude Operaria Católica. Até na Direcção da Adega Cooperativa ajudou. Congregou e recebeu sempre os emigrantes medenses.

Na Cultura desde muito cedo esteve ligado ao teatro dos jovens estudantes, promoveu sessões de cinema de entrada livre, esteve ligado ao grupo fundador do Jornal da Luz da Beira e no qual sempre colaborou. Promoveu viagens, abriu portas e ajudou muitos a olhar e verem os outros mundos e outras alternativas.

No Ensino foi o pai fundador do ensino do Secundário em Meda. Lançou as bases do Externato de Santo António de Meda nos anos 60. Por ali passaram gerações e gerações de jovens, que vieram a ser os administrativos, os bancários, os professores das nossas aldeias, os técnicos de contas, os topógrafos, os engenheiros, os economistas, os médicos, os enfermeiros, advogados e outras mais profissões do Portugal do 25 de Abril.

O Terreiro de São Domingos poderia muito bem vir a ser e merecer um busto de lembrança ao Padre José Maria de Lacerda, em frente á casa onde funcionou a primeira sala de aulas do Externato. E numa lápide de pedra poderia escrever-se: “Um homem para quem o saber valeu mais que o ter”.

A Assembleia Municipal de Meda manifesta o seu mais profundo pesar pela morte do Sr. Padre José Maria de Lacerda e manifesta à família as mais sentidas condolências.

Em honra à sua memória, proponho que este órgão guarde um minuto de silêncio, perpetuando a referência do Senhor Padre José Maria de Lacerda nesta cidade e neste concelho.

Mêda, 21 de Dezembro de 2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Sr. Vigário, (Padre Lacerda), Até Sempre...

Há momentos e pessoas que marcam as nossas vidas…
O Sr. Padre Lacerda, ou melhor, o Sr. Vigário ficará eternamente nas nossas memórias.
O seu falecimento, faz-nos pensar, reflectir na sua forma peculiar de estar e que muito contribui para o desenvolvimento da Mêda.
Uma memória colectiva é o seu legado, que merece eternamente ser homenageado, pessoa de carácter e de missão cumprida em prol de Gerações, permitindo que muitos Medenses, hoje, vivam melhor e tenham logrado das oportunidades que o Externato Santo António, abriu…
A sua obra, a sua vida, o seu olhar, a sua postura, o seu temperamento, fizeram dele uma pessoa invulgar.
Ao reconhecer as suas virtudes, admito também, as suas debilidades, que por vezes, com um temperamento tempestivo e uma moralidade conservadora tenham causado alguma insipidez.
Mas a sua vida, foi uma vida de causas, de missão e de benemérito a Gerações, que certamente não o irão esquecer!

Bem-haja Sr. Vigário…

Deixo, umas pequenas e humildes palavras que redigi na altura da despedida do Sr. Vigário e que foram publicadas (há já alguns anos).


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

AQUELOUTRO

O dúbio mascarado o mentiroso
Afinal, que passou na vida incógnito
O Rei-lua postiço, o falso atónito;
Bem no fundo o covarde rigoroso.

Em vez de Pajem bobo presunçoso.
Sua Ama de neve asco de um vómito.
Seu ânimo cantado como indómito
Um lacaio invertido e pressuroso.

O sem nervos nem ânsia - o papa- açorda,
(Seu coração talvez movido a corda...)
Apesar de seus berros ao Ideal

O corrido, o raimoso, o desleal
O balofo arrotando Império astral
O mago sem condão, o Esfinge Gorda.


Mário de Sá-Carneiro

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Moção apresentada pela Bancada do Partido Socialista de Mêda na Assembleia Municipal no dia 30 de Setembro de 2010

Moção apresentada pela Bancada do Partido Socialista de Mêda na Assembleia Municipal no dia 30 de Setembro de 2010 – Aprovada por unanimidade.


Sendo do conhecimento de todos que o Governo tencionava isentar dentro das SCUT´s a A23 e A25, mas tal não aconteceu por imposição clara do maior partido da oposição (PPD/PSD), vimos, com desagrado, que apesar do Governo ter encontrado uma solução de compromisso e discriminação positiva para com o Interior, nós Medenses não podemos aceitar que face à nossa já periférica posição dentro do Distrito sejamos ainda mais discriminados na medida que não seremos abrangidos, ao contrário da quase totalidade dos concelhos limítrofes pela isenção que permitirá aos seus habitantes fazem-se deslocar sem custos nestas duas vias.

Certo que o Concelho da Mêda dista a mais de 20Km das mesmas, não é menos verdade que os indicadores de desenvolvimento socioeconómicos justificariam que face ao desfavorecimento ao qual este Concelho está votado que se reconsidere-se a 1ª premissa isentando também os Medenses que pretendem de futuro usufruir estas duas vias, potenciando sobremaneira e contrariando quase certo o definhamento deste território.

Mais alertamos que somos um Concelho com o menor rendimento percapita do Distrito e do País, situação à qual se alia o facto de não sermos contemplados por uma via estruturante de grandes dimensões, entende-se Auto-Estradas (salientamos que apesar da construção do IP2) este não permite que possamos deslocarmo-nos à sede do Distrito sem custos.

Assim, e dadas as circunstâncias apresentadas, não nos parece justo que haja cidadãos do nosso Distrito que sejam claramente favorecidos quando os mesmos têm rendimentos socioeconómicos superiores aos nossos.

Face a esta conjuntura, somos obrigados acreditar que só poderá ser um engano o facto de quererem que aqueles que nos 36 anos de Democracia não usufruíram de qualquer tipo de infra-estruturas, IP e AE, sejam os primeiros, e quase únicos, deste Distrito a ter que pagar portagens na A23 e A25, únicos eixos que nos poderão levar ao desenvolvimento.

Pelo exposto, pedimos que esta Moção vos possa sensibilizar e demover esta discriminação claramente negativa para com aqueles que mais isolados estão e mais sofrem de subdesenvolvimento. Por um Portugal igualitário nas oportunidades os Medenses exigem, por esta forma, serem incluídos num conjunto de Concelhos do seu Distrito, contemplados com a isenção do pagamento de portagens da A23 e A25.



1º Subscritor
Cláudio Jorge Heitor Rebelo

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

No imaginário da vida

Porque hoje estou mais triste...
Ao meu sogro que partiu, mas, onde quer que esteja, deixo-lhe estas breves palavras que decidi escrever esta manhã entre um café e um sonho mal acordado.

Até Sempre, Raul.



No imaginário da vida
há sempre uma raiz mais funda
há sempre um rebento mais forte
um fruto mais viçoso.

No imaginário da vida
há um rosto de fantasia
que nos leva mais além,
que nos faz acreditar
que tudo é eterno…

Porém, no cintilar de uma espera
há um receio,
uma fraqueza,
sem que se estivesse a contar
emerge uma dor de perda
sem o sol da luz da manhã
tudo se esvai
a esperança e a fé.

Mas no imaginário da vida
há o brilho da ilusão
que nos faz acreditar
que há sempre mais um Verão
cheio de calor e de esperança
da inquietude da vida
e no reboliço dos sonhos
entre o cheiro das flores
vejo no sorriso do teu olhar
o amanhã a florir com tulipas
e orquídeas do teu coração…
Cláudio Heitor Rebelo
(Porto - 02-08-2010)

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Comparar-te a um Dia de Verão?

Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um Maio em flor às mãos do furacão,
o foral do verão que chega ao fim.
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.
Mas juro-te que o teu humano Verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;
e, na canção sem morte, viverás:
Porque o mundo, que vê e que respira,
te verá respirar na minha lira.

William Shakespeare, in "Sonetos"

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A propósito das SCUT´s

A propósito das SCUT´s

A propósito das SCUT´s… e após a leitura de um artigo de opinião publicado pelo Correio da Manhã – jornal que raramente leio pois não aprecio particularmente, por o conotar com uma espécie de “Diário de um Serial Killer”.
Um domingo destes, enquanto tomava café, detive-me na leitura transversal do Diário e, surpreendentemente ou não, prestei atenção a um artigo da autoria do Dr. Francisco Moita Flores. Fiquei sem perceber se o escrevia na qualidade de escritor, ex-agente criminal, investigador, ou na qualidade de Presidente da Câmara.
Presumindo que o fez enquanto edil de Santarém, o Dr. Moita Flores impressionou-me, desta vez e ao contrário do habitual, pela negativa.
O próprio revela dificuldade em perceber o que se entende por Discriminação Positiva, baseada na ideia da existência de portugueses diferenciados, afirma mesmo que admitir uma diferença de estatuto económico, de estatuto diferenciado, não ia de encontro às suas convicções.
Mais acrescenta que os moradores da margem Sul do Tejo e que diariamente atravessam o rio, sendo que para tal pagam um título de transporte de forma a se deslocarem para os seus locais de trabalho, são aqueles que são discriminadas de modo negativo. Eu pergunto, será que Moita Flores desconhece que, por exemplo, o Metro e a Carris que todos os dias, meses e anos asseguram o transporte destes Portugueses, dão ao Estado prejuízo. Lembro que todos nós cidadãos contribuímos com os nossos impostos para a manutenção desses serviços, dos quais nem todos usufruímos. Entendamos então que a discriminação positiva também existe na capital.
Não cabe discutir aqui esta e muitas outras formas de discriminação do Litoral face ao Interior, até porque estou ciente que, muitas dessas pessoas descritas por Moita Flores, são oriundas do Interior do país. Vítimas de deslocações forçadas pela discrepância profundíssima de empregabilidade. Aqui sim, reside uma discriminação administrativa e jurídica no nosso território para com os portugueses do Interior.
Detenhamo-nos nas SCUT´s que para Moita Flores só poderão cingir-se a uma regra, adequada à série de dificuldades económicas criadas pela crise global e transversal que o país atravessa: Quem utiliza paga! Eu não me desloco, logo não tenho que contribuir para a manutenção destas SCUT´s.
Depois de reflectir sobre este axioma, deduzo a necessidade de contabilizar outras premissas e refutar tal ideia. O cidadão do Distrito da Guarda entende justa a Discriminação Positiva, e lutará pela isenção no pagamento das SCUTS, nomeadamente na A23 e A25 baseada em pressupostos, entre os quais:
- Na própria génese, a construção do IP5, transformado posteriormente em A25, financiado com Fundos da União Europeia, salientando-se então a isenção de portagens.
- Na época, o Interior foi gravemente discriminado na construção do IP5. Como reconheceu anos mais tarde o então Ministro Ferreira do Amaral, existiam 2 formas de construir um eixo rodoviário de Vilar Formoso/Aveiro, uma Auto-Estrada ou um IP. Foi então decidida a construção de um IP, sendo que a restante verba veio, mais tarde, a permitir a construção da CREL;
- Pela própria definição de SCUT (“Sem Custo para os Utilizadores), justificada por uma efectiva coesão nacional e territorial;
- Pelos indicadores do desenvolvimento socioeconómico, claramente inferiores à média nacional;
- Na realidade que um cidadão do Interior tem forçosamente que se deslocar ao Litoral para resolver enumeras questões nos mais diversos serviços que se encontram longe das suas realidades locais, situação que não encontra reciprocidade, ou seja quem vive no Litoral não necessita de se deslocar ao Interior para resolver os seus problemas. Pergunto, haverá alguém decidido ou que se quer pense transferir Ministérios e outros Serviços Centrais para o Interior do nosso País?
- Nos rendimentos auferidos pelas cidades do Litoral através do investimento público (Universidades, Hospitais e outros Serviços) que se tornam fontes de emprego e de rendimento. Vejamos, todos os anos assistimos à procura de milhares de jovens do nosso Distrito de escolas e Universidades nos grandes centros urbanos, uma deslocação que obriga a que estes jovens e seus pais tenham que pagar alojamento, alimentação, e outros custos inerentes aos cursos que frequentam. Em suma, são todos os anos despejados no Litoral milhões de euros provenientes das famílias do Interior, que deste modo têm de pagar para usufruírem de um serviço público que não possuem na sua área de residência.
Note-se que poderíamos enumerar um enorme conjunto de serviços, onde a população do Interior é obrigada a deslocar-se contribuindo para que esses serviços se mantenham abertos no Litoral.
- Na realidade de que o Interior contribui para o enriquecimento do Litoral, uma vez que, as suas populações são obrigadas a migrar para o Litoral, provocando um aumento demográfico, habitacional, emprego, equipamentos sociais, entre outros…
- Na restituição do IP5 para que possamos deslocarmo-nos até Viseu, ou a Aveiro sem portagens, uma vez que, o actual estado de conservação das vias alternativas às SCUTS, torna-as hoje piores do que há 20 ou 30 anos atrás. Note-se ainda a escassez de alternativas ferroviárias.
- Na informação que 80% do traçado da A25 no Distrito da Guarda o limite de velocidade é de 100Km/h, revelando que em termos de segurança rodoviária o troço fica aquém de outros troços da mesma Auto-Estrada e de outras.
Por tudo isto, entendemos merecida a discriminação, exigindo justiça para com as pessoas do Interior, uma justiça só possível com uma discriminação positiva.
Reconheço mérito a Moita Flores, mas também entendo que ninguém é Senhor da Razão e assim a Razão tem que ser repartida.
As razões de ser Beirão só um Beirão as poderá conhecer e, por isso, entendemos bem a discriminação que uma vez mais estamos a ser alvo. Cabe-nos não ficar calados!

terça-feira, 20 de abril de 2010

Uma Cantiga...

Neste fim de tarde, quis recordar um tema muito particular e de muito significado - “ Menina dos Olhos de Água” do Pedro Barroso – mas como as músicas, por vezes, são como as cerejas, não conseguimos parar e assim quis também recordar um tema que por certo se enquadra no espírito de Abril, aqui deixo uma das letras mais interessantes que conheço e por certo encantará Orpheu nos momentos de maior comodismo e de laxismo.

- A cantiga é uma arma de José Mário Branco -

a cantiga é uma arma

eu não sabia
tudo depende da bala
e da pontaria
tudo depende da raiva
e da alegria
a cantiga é uma arma
de pontaria

há canta por interesse
há quem cante por cantar
há quem faça profissão
de combater a cantar
e há quem cante de pantufas
para não perder o lugar

a cantiga é uma arma
eu não sabia
tudo depende da bala
e da pontaria
tudo depende da raiva
e da alegria
a cantiga é uma arma
de pontaria

O faduncho choradinho
de tabernas e salões
semeia só desalento
misticismo e ilusões
canto mole em letra dura
nunca fez revoluções

a cantiga é uma arma(contra quem?)
Contra a burguesia
tudo depende da bala
e da pontaria
tudo depende da raiva
e da alegriaa cantiga é uma arma
de pontaria

Se tu cantas a reboque
não vale a pena cantar
se vais à frente demais
bem te podes engasgar
a cantiga só é arma
quando a luta acompanhar

a cantiga é uma arma
contra a burguesia
tudo depende da bala
e da pontaria
tudo depende da raiva
e da alegria
a cantiga é uma armade pontaria

Uma arma eficiente
fabricada com cuidado
deve ter um mecanismo
bem perfeito e oleado
e o canto com uma arma
deve ser bem fabricado

a cantiga é uma arma
(Contra quem camaradas?)
Contra a burguesia
tudo depende da bala
e da pontaria
tudo depende da raiva
e da alegria
a cantiga é uma arma
de pontaria

a cantiga é uma arma
contra a burguesia
tudo depende da bala
e da pontaria
tudo depende da raiva
e da alegria
a cantiga é uma arma
contra a burguesia

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Imaginação

A imaginação é magia e é arte
que nos faz inventar, sonhar e viajar.
Com imaginação podemos ir a Marte
ou ao centro da Terra, ou ao fundo do mar.
Com imaginação nunca estamos sozinhos.
A imaginação é um voo, um lugar
onde temos amigos, onde há outros caminhos
nos quais, sem te mexeres, podes ir passear.
Inventa uma cantiga, um poema, um desenho
um arco-íris, um rio por entre malmequeres;
esse lugar é teu, sem limite ou tamanho.
A esse teu lugar, só vai quem tu quiseres.

Rosa Lobato Faria

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

António Sérgio, até sempre...

As melodias e sonoridades que, ao longo das últimas décadas, nos foram dadas a ouvir por António Sérgio nos seus programas de rádio, fizeram do locutor um caso ímpar da esfera radiofónica portuguesa.
A sua voz eloquente, rouca e com uma extraordinária colocação, fizeram dele um caso único, nas escolhas e nas novidades sonoras que fizeram de António Sérgio um ícone das últimas décadas pela marca que imprimiu às escolhas musicais de várias Gerações.
Na Comercial e mais recentemente na Radar, ouvi nos seus programas sonoridades que marcam as minhas escolhas e definiram o meu gosto musical.
Ao longo da década de 90, aprendi a gostar de Grunge e bandas como Dinossauro Jr., Pearl Jam, Nirvana, Soundgarden, Stone Temple Pilots, L7, Hole, entre outras. Ao longo desta década de 90, aprendi a gostar de outras sonoridades, de Bristol vieram outras bandas para os nossos ouvidos, desde Portishead, Massive Attack, Goldfrapp, Air, Hooverphonic, Kid Loco, Gus Gus, Jay-Jay Johanson, Gotan Project, DJ Shadow, Moloko Lamb, Moloko, Zero 7, entre muitas.
Ao longo desta última década, António Sérgio passou nos seus programas belas sonoridades, novas tendências conjugadas à electrónica e seus derivados, proporcionando uma sonância colorida e independente a todos os seus ouvintes.
António Sérgio era uma margem de certa maneira, uma margem que marcava a diferença, a diferença de um locutor capaz de se adequar aos novos tempos, ao longo de muitos anos. No fundo, ele era impulsionador de novas tendências, de novos ritmos e de novas gerações, ele dava-nos a ouvir o som da frente, da vanguarda, da independência e da alternativa, conjugava o mistério da novidade com o que de melhor se fez ao longo das últimas décadas, fazia respeitar o antes, projectando os sons do amanhã.
Enfim, António Sérgio era o “lobo radiofónico” e o seu timbre fazia-o “único”.
Não sei se o António sabia cantar, mas o seu vozeirão era excepcional e por isso deixem-me apelidá-lo do Tom Waits da Rádio Portuguesa.

Este dia, marca o fim de um ídolo de muitos, que com ele aprenderam a ouvir e a seguir grandes bandas e músicos que marcaram diferentes gerações.
Um Abraço para todos aqueles que ouviram ao longo de anos os seus programas, um deles o meu amigo Tó Sampaio.
Para o António Sérgio, até sempre…

domingo, 25 de outubro de 2009

As fraquezas da nossa Democracia...



A tentação de não pecar ou melhor, a tentação de não desagradar à oposição levou Sócrates à impulso de nomear ministros independentes, possuidores de um conhecimento técnico e operacional, mas também discretos do ponto de vista das elites sociais.
Porém não se escusou de nomear, para sua esfera nuclear e de proximidade, alguns nomes previsíveis e que denotam continuidade na sua saga reformista.
Teixeira dos Santos, Luís Amado, Pedro Silva Pereira e Vieira da Silva são nomes mais do que previsíveis, desejáveis dada a sua importância no aparelho partidário do PS. Note-se que, neste seio, o afastamento de Augusto Santos Silva e a não promoção de Jorge Lacão podiam causar danos internos e a implosão poderá ainda acontecer se Ascenso Simões e Luís Patrão, entre outros, próximos de Sócrates não forem nomeados para gerir algumas das mais importantes Secretarias de Estado.
Aquando da constituição de um Governo, as tentações são sempre muitas... Serão talvez menores quando as maiorias relativas não permitirem o olhar atento de não hostilizar em demasia a oposição.
Por isso, foi importante afastar os Ministros que mais impopularidade suscitaram em determinados sectores sociais e profissionais.
Este posicionamento foi uma variável necessária para que ecluda, nos próximos tempos, algum estado de graça e assim, a apresentação do programa de governo e o próximo orçamento de estado possam passar, sem grande contestação ou com a abstenção necessária às suas aprovações. Questões estas não falíveis apenas para o Governo, existe de igual modo, uma responsabilidade acrescida para os partidos da oposição. Mas a história nem sempre se repete. Comparar o actual sistema político Português e contextualizá-lo com o que vigorou, há mais de 22 anos atrás, é um exercício anacrónico, extemporâneo, o risco e a resposta dada em 1987 pelos Portugueses não será porém de descartar enquanto solução a uma oposição irresponsável.
Os Portugueses fartaram-se de eleições e o que mais precisam é de respostas efectivas aos problemas do seu quotidiano. O desemprego é a gigante preocupação, pela sua intrínseca ligação à economia.
Os Portugueses não entendem que a economia pode crescer com o emprego a diminuir, como exemplo do nosso país vizinho, no decorrer dos governos de Felipe Gonzáles isso aconteceu. Pode servir de exemplo mas não de antídoto para as dificuldades das nossas famílias.

Julgo que a imaginação conjugada com determinação, pode ser importante na superação desta crise económica e social. A continuidade de Ana Jorge, Rui Pereira ou mesmo Mariano Gago são garantia de uma menor adversidade à impopularidade. Neste neófito governo a paridade não será também manchete de discussão, o que vem acrescentar créditos na popularidade do mesmo. Realce-se que este governo com mais mulheres, aproxima-nos da norma europeia, no entanto afasta-nos com um número acrescido de ministros independentes. Como escreveu Pedro Adão e Silva, ao Jornal I « É verdade que a entrada de novos ministros, recrutados fora da esfera partidária e governativa, revela capacidade de atracção, quando se temia que ela já não existisse. Mas, acima de tudo, esconde um conjunto de fragilidades do sistema partidário português. Fragilidades que, em lugar de serem contrariadas, são reforçadas. Os independentes tendem a revelar-se, com excepções, casos problemáticos de inabilidade política (risco que é maior quando não há maioria absoluta). Mas são essencialmente um sintoma de fraca institucionalização dos nossos partidos. Nas democracias do Norte da Europa há poucos ministros vindos de “fora” do sistema partidário: ou são previamente eleitos para o parlamento ou são “ políticos profissionais”, saídos dos aparelhos partidários ou sindicais.
Num caso e noutro, há incentivos para os melhores irem a votos e, o que não é menos importante, para se envolverem na vida política. Em Portugal temos sistematicamente o incentivo contrário. A mensagem é clara: "Se ambicionas ser governante, afasta-te dos partidos." Esta mensagem tem várias consequências - degrada (ainda mais) a imagem dos partidos e secundariza o seu papel na configuração da governação, ao mesmo tempo que tenta resolver pela porta do cavalo a sua fraca ancoragem social. Se calhar, as quotas de que precisamos são as que obrigam os ministros a serem eleitos em listas partidárias.»


Com este novo Governo, surge a dúvida ao nível de conflitualidade, que será emergente entre o poder e o contra-poder. E eis que surgem as dúvidas: Sócrates será capaz de esconder dentro de si o animal feroz e a austeridade de governar? Não cairá na tentação de ceder a alguns lobbies que afrontou no Governo anterior? Continuará este primeiro-ministro a preferir quebrar do que torcer? Sócrates terá já cogitado das dificuldades parlamentares, certo de uma oposição que vai querer Governar sem assumir responsabilidades...?
A capacidade de saber governar e o tempo que durará este Governo estará dependente da astucia política de Sócrates e dos seus ministros, para impossibilitarem a Oposição a governar a partir do Parlamento. Por isso, o destino dos socialistas e o dos partidos da Oposição será traçado em eleições e aí o que mais contará será o estado da economia. A economia será o factor determinante da Governação, se a crise for superada de pouco valerá à oposição lamentar-se, Sócrates será o grande vencedor.
Aguardemos pelos próximos capítulos, das fraquezas da nossa democracia...


quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Uma Escola...

Por vezes, somos surpreendidos com raciocínios de bastante interesse de autores que não temos a maior das admirações e por quem presumivelmente não tem um conhecimento específico sobre o assunto tratado. Neste caso, é um texto de António José Seguro sobre o tema “ A Escola Ideal”, não é um texto que transmita algo de concreto que se possa concretizar no presente, um novo paradigma mas sim, uma ilusão, uma utopia futurista que norteia e que aguce um desafio constante e permanente.
Será sempre difícil para um político poder desligar-se dos mecanismos e automatismos que a mesma nos obriga. A visão de um pedagogo, é sempre um desafio diferente e terá uma perspectiva mais naturalista, contudo rendo-me ao texto de António José Seguro, porque não deixa de ser uma visão da qual tem um interesse na defesa de uma escola de todos e para todos, com a quimera necessária de que um dia a escola seja como Comenius a projectou “Ensinar tudo a todos”.

Cito:
Na escola ideal para os meus filhos “todos são filhos e não háenteados”. Todas as crianças são tratadas pelo seu nome. Há meninos emeninas de várias culturas e nacionalidades. As origens e os percursosde vida são conhecidos e partilhados. A diferença é cultivada evalorizada como uma riqueza da Humanidade. A diferença suscita acuriosidade, o interesse e o respeito. Ser diferente soma e une.Na escola os professores são referências. Pela sua visão do mundo,pelo que sabem, pela forma como transmitem o conhecimento, pela suadisponibilidade e pela sua dedicação, exclusiva, a ensinar a aprender.
Os professores são pessoas felizes e realizadas. São amigos.Na escola ideal ensina-se a aprender e a ter gosto em continuar aaprender ao longo da vida, dando expressão à ideia de Agostinho da Silva que a escola deve ser um local onde eu possa ir 24 horas pordia, 365 dias no ano, perguntar tudo o que não sei e poder conversarcom todas as outras pessoas que vão fazer o mesmo que eu.Na escola ideal não há apenas alunos e professores. Há pais e toda umaaldeia, uma vila ou uma cidade necessária para a educação de cada umadas crianças. Há professores e profissionais especializados.
Nesta escola não há muros nem grades divisórias. É integralmenteconstruída em paredes de vidro - bem no centro da cidade.
A escola é o coração do espaço público e os seus jardins e espaços verdesconfundem-se com a envolvente urbana. As vias pedonais atravessam aescola e o campo de recreio é visível por todos. Nesta escola aeducação cívica não substitui a educação devida pelos pais mascomplementa-a na busca de uma sociedade mais solidária. Não há temas tabus e a educação sexual é encarada com naturalidade.
Os comportamentos violentos, de discriminação e de bullying são abordadose discutidos por todos e a inclusão é explicada como forma de vida. Não se escondem as desigualdades sociais e explica-se abertamente porque razões existem e de que forma podemos corrigi-las. A escola ideal não reproduz a sociedade. Puxa pela sociedade. Vai à frente.Na escola ideal há livros que não param de chegar e que se juntam aosclássicos. Apreende-se a História do meu país e a Universal. Desenvolve-se a compreensão. Aprendem-se línguas. A língua portuguesaem primeiro lugar. Estimula-se o raciocínio, a criatividade e aimaginação.
As crianças não abandonam a escola sem saberem ler,escrever, contar e falar. A escola prepara para a vida. Para o mercadode trabalho, mas também a ser Homens e Mulheres. Profissionais empreendedores, competentes e cidadãos responsáveis.Uma escola exigente, com igualdade de oportunidades para todos, quenão deixe ninguém para trás e que garanta condições de afirmaçãoindividual das competências de cada aluno.Uma escola com tempo para aprender, para praticar desporto, brincar econviver. Uma escola que promove as ideias e incentiva a critica. Que ensina a utilizar as novas tecnologias e nos envolve no mundo dasartes. Onde se aprenda que o ser é mais importante que o ter.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Coincidência ou Semelhança?



Coincidência ou Semelhança?

Exercício:

Substitua as palavras: Manuela Ferreira Leite por João Mourato e a palavra Madeira por Meda; e certamente encontrará algo de semelhante!