sexta-feira, 24 de junho de 2011

O preço da pressa

Há momentos que nos fazem despertar, palavras que nos fazem ressuscitar, artigos que merecem ser lidos, opiniões incitadoras de reflexão e este artigo de Miguel Esteves Cardoso, é disso um belo exemplo.

O preço da pressa

O castigo de ser feliz é o tempo passar depressa. O castigo de ser triste é o tempo não passar. A recompensa de não conseguir ser nem triste nem feliz, permanecendo indiferente, é o tempo passar devagar. Se todos os dias nascemos - os que temos a sorte de amar, mais a suspeita de sermos, talvez, amados - todos os dias morremos cedo de mais.


Se me perguntassem quanto tempo passei com a Maria João, nos últimos 15 anos, eu teria muitas dificuldades em não responder 15 dias ou até 15 minutos, por não saber mostrar e justificar até esse pouco tempo que passámos.

Ainda ontem acordámos às oito da manhã. Mas, às sete da tarde, apesar de termos passado o dia juntos, pareceu-nos que nos tinham roubado o dia inteiro; que tínhamos acabado de nos conhecermos.


Passo do amor à política, por amor ao meu país. A despedida do conhecido e comprovado José Sócrates deveria ter sido tão generosamente saudada como foi recebida a vitória do simpático mas inexperiente Passos Coelho.


O tempo, a ocasião e a sorte parecem ser coisas parecidas - mas são coisas muito diferentes. O ponto de vista, conforme o lugar onde se esteja e de onde se veja, importa mais do que o sentimento ou o juízo.
É sinal de ser-se feliz achar que o tempo nos foi roubado e que é pouco o tempo que tivemos e pouco o tempo que nos resta.


Não se pode dar importância de mais ao presente, seja amoroso, político ou financeiro. A pressa não é uma escolha: é uma consequência. E um preço.

Público 2011-06-08 Miguel Esteves Cardoso

sábado, 21 de maio de 2011

As análises políticas são como o futebol...

Hoje nas redes sociais, em particular no Facebook, reparei que alguns agiotas e analistas da desgraça dão uma vitória a Pedro Passos Coelho no debate de ontem com José Sócrates. Enfim, as "análises políticas são como as cerejas...” e são sempre suspeitas quando estamos ligados a interesses ou mesmo a circunstâncias de índole ideológica.

Porém, especulando sobre que a Comunicação Social está interessada na mudança de ciclo político, dado que José Sócrates tem uma personalidade por vezes autoritária e arrogante, traços de carácter que incomodam as sensibilidades mais frágeis do 5º poder.
Hoje, mais do que nunca, os jornalistas são marionetas dos seus patrões, e assim se compreende a degustação e regozijo de alguns senhores.

As expectativas do debate eram enormes, foi sem dúvida o debate mais aguardado nos últimos tempos, por um lado as sondagens recentes apontam para um empate técnico entre os dois maiores partidos, relançando assim uma mais do que possível vitória do Partido Socialista no próximo dia 5, obrigando o PPD/PSD a novas eleições internas e acentuando uma vez mais, a grande convulsão interna que se vem a assistir nos últimos tempos, entre Rios, Santanas, Morais Sarmentos…

Ao mesmo tempo, este debate tinha contornos de grande importância para Passos Coelho, este esteve muito fraco nos anteriores e era apontado como o mais inábil dos 5 candidatos.
Sabendo-se dos erros sistemáticos que Passos Coelho tem cometido, era expectável assistir a mais uma desonrante prova de teste que poderia pôr em causa a 2 semanas das eleições uma descolagem do seu rival para mais uma vitória de Sócrates.

Conhecendo-se a grande capacidade de Sócrates para os confrontos/debates, esperava-se um trituramento de José Sócrates face ao imaturo Passos Coelho.
Os objectivos para este confronto eram claros, por um lado os Socialistas apostando numa vitória demolidora e os sociais-democratas acreditando perder por pouco.

Depois de uma hora de debate as conclusões eram óbvias, apenas 4 temas foram ventilados, muitas dúvidas por esclarecer, esperando que ao fim de uma hora Passos Coelho fosse capaz de apresentar uma alternativa séria para o País, porém fantasiou uma caixa de Pandora para as duas próximas semanas.
É certo que Sócrates não goleou, mostrou maior preparação e conseguiu que Passos Coelho tenha jogado na defensiva. Um aspecto negativo para Sócrates foi não ter conseguido trazer à liça o programa do PSD ao longo de todo o debate.

Em conclusão, fica a certeza que José Sócrates ganhou por uma vantagem mínima, e que esta vitória tangencial não tenha servido os interesse de muitos que estavam à espera de uma goleada… Sabemos que Passos Coelho perdeu os debates anteriores e ontem o PSD estava com medo de levar uma tareia, como perdeu por pouco, entende que ganhou o debate.

O que é certo é que vamos a prolongamento nas próximas duas semanas, esperando pelas gafes e pelos deslizes dos dois candidatos com a certeza da marcação das grandes penalidades para o próximo dia 5 de Junho.

O que ganhar terá que fazer acordos e adquirir novos reforços o que perder neste confronto, terá como certo a chicotada psicológica!

quinta-feira, 3 de março de 2011

Faz parte da História... (João Heitor)

Faz parte da História...
Mas em 2011, ainda, coordena e edita em Lisboa um livro do seu amigo Jaime Gonçalves: Farrapos da Emigração. Memórias de vida de emigrantes
Manda fazer 200 Livros. Cada um de 450 páginas de português.
Numa 2ª feira de Fevereiro levanta-os da editora e carrega-os, talvez de táxi, para o seu apartamento em Odivelas - 2º andar ás costas. Tem 60 anos.

Arranca na 3ª feira de avião de Lisboa para Paris, carregando consigo 30 quilos de Livros, carga máxima permitida o que deu uns 60 livros. Despoja-se das suas roupas e compra num chinês um saco para a carga dos livros.
4ª e 5ª feira , em Paris, organiza a Vernissage ou o Lançamento do Livro no Consulado de Portugal em Paris. Pensa no cocktail e elabora os convites.
Pessoalmente, por correio, por email, por telefone mobiliza pessoas das sua rede de amigos, das suas redes comerciais, das suas redes sociais.
Na 6ª feira passada consegue meter na sala do Consulado umas 150 pessoas, dos mais variados matizes Gente da 2ª Geração e 3º Geração (os mais novos). Formados e não formados, empresários com sucesso, gente da cultura , do comércio e inserida nas entidades e organização francesas. São Bi- tanto portugueses como de franceses. A geração do seu pai, dos operários, das porteiras de Paris, já se diluiu.

Este Missionário bota discurso, galvaniza a plateia e elogia a obra do seu amigo escritor Jaime Gonçalves. Nascem ideias destas gentes em prol da Cultura Portuguesa.
Vende a quase totalidade dos livros que levou. Desmancha a tenda e o João Heitor ou o João Portugal é desafiado para novas tarefas em prol da Cultura Portuguesa.
Sábado está na Rádio ALPHA, com o seu amigo Jaime. No Domingo está em Versalhes numa associação de portugueses, com o seu amigo e vende o resto.
Quantas Associações de Portugueses irá visitar levando o livro? Quantas Associações de Portugueses ele não visitou no passado, na sua actividade de 20 anos de Livreiro, levando os livros dos autores portugueses? Vendeu livros em Paris, arredores de Paris e algumas cidades de França. Vendeu livros em Marrocos e no Brasil. Parte do seu espólio morreu na Suíça no Verão passado. Tem um espólio de mais de 10 000 livros que distribui pela sua casa e armazéns de amigos, dado o fecho da Lusophone. Talvez alguns irão descansar na Biblioteca da Mêda. Livros levados de Lisboa a Paris e vice-versa em centenas de viagens de carro. Nos primeiros tempos dormia-se no carro e ia-se pelas estradas nacionais, poupança nas portagens. Tive a primazia de o acompanhar, algumas vezes, neste calvário do livro e da vida.
Enfim, ficamos por aqui.

Nesta 2ª feira arranca de avião de Paris a Lisboa, onde chega á noite. 3ª Feira, ontem, esteve comigo, transporta mais ideias e desenvolve. 4ª feira, carrega mais 60 livros, carga máxima do avião e parte de novo para Paris. Hoje 5ª feira vai estar não sei aonde. É preciso vender quando a onda criada ainda tem crista.

Aos 60 anos edita ainda, carrega ainda para Paris, passou uma vida a carregar e a vender livros em Paris.
Só por Fé e só um missionário a divulga.
A Fé deste Missionário está nos livros da Cultua Portuguesa . O seu Deus, o nosso Deus só pode estar no meio dos livros.

Este é o irmão, o pai, o marido, o cunhado, o tio, o amigo que temos.

Egidio Heitor
03-03-2011

Actividades Culturais em Paris (João Heitor)





Tio João


Établi en France depuis 33 ans, João Heitor est, aujourd’hui, un synonyme du mot livre, pour la Communauté Portugaise résidente aussi là-bas. Libraire et éditeur, il diffuse la langue et la culture nationales, à partir du cœur du Quartier Latin Parisien où sa Librairie Lusophone est considérée comme le point de rencontre par tous ceux qui aiment énormément la littérature portugaise.


C’est João Heitor qui, dans son allure décontractée, qui m’a d’abord attiré l’attention sur la petite plaque allusive à António Nobre, située sur la façade du nº 12 de la rue de la Sorbonne, où le poète à vécu, en 1890-1891. Au ré-de-chaussé, il existe maintenant un petit et coloré “Sun coffee” dont les paninis et les viennoiseries, bien en évidence font de l’ombre aux deux plaques allusives aux deux poètes qui y ont vécu. António Nobre et, plus tard, Ossip Mandelstam ont partagé la vue sur la superbe Sorbonne qui surplombe le Quartier Latin et dont la grouillante vie culturelle aurait fait l’objet d’inspiration au poète portugais pour la composition de sa première œuvre - "Só", édité à Paris, en 1892.

Dans le regard de João Heitor, on voit encore l’éclat lorsqu’il raconte les difficultés surmontées pour réaliser un tel hommage à l’auteur de “Lusitânia no Bairro Latino” justement parce qu’il s’agissait du voisinage de la fameuse université. Aujourd’hui, une fois les adversités vaincues, c’est avec plaisir qu’il indique l’itinéraire de moins de cinq minutes qui sépare sa librairie de l’ancienne maison du poète.

Dans les alentours de la rue Sommerard, où il y a 20 ans, il a ouvert pour la première fois la porte de sa Librairie Lusophone, tous le connaissent comme le « Portugais des livres », une désignation dont il est fier.

Lorsqu’il y a 36 ans, il a quitté le Portugal, João Heitor était un adolescent idéaliste qui trouva sa motivation pour se laisser mener par les grands idéaux universitaires avec lesquels il a eu contact, par son éducation, au sein de la « Congregação Cambodiana », à Viseu.

Avant son départ pour la France, en 1974, il a passé trois ans à étudier et à travailler en Espagne, ce qui a contribué à la formation de l’homme qui, plus tard, réalisa une maîtrise en sociologie à l’« École des hautes études en sciences sociales”, à Paris. Aujourd’hui, il reconnaît posséder « l’esprit structuré par la méthodologie de l’école française » allié au « côté poétique et spontané des portugais” le dote d’instruments de combat et de dynamisme nécessaires à l’exercice de la fonction qu’il a choisi.

Son arrivée « aux lettres » avec l’ouverture de la librairie en 1987, c’est naturellement faite à travers de la passion qu’il a toujours eu pour les livres et la culture portugaise. Loin derrière se trouve l’époque de l’enseignement du Portugais aux générations des immigrés portugais en France et des revendications culturelles des différentes structures associatives qui, en tant que jeune récemment arrivé à Paris, il a aidé à construire.

Aujourd’hui, à 55 ans, il raconte comme il se sent comblé à l’idée de savoir qu’ « il a marqué la communauté par le livre » et il a le plaisir de pouvoir recevoir avec amitié tous ceux qui franchissent la porte de sa librairie à la recherche d’auteurs lusophones, dans la langue d’origine ou dans les multiples traductions en Français qu’il a aussi en vente. Il sait que sa librairie est devenue un point de rencontre, où des éléments de la communauté portugaise et des étrangers de différentes nationalités se rassemblent autour de la culture portugaise. Il sourit avec joie lorsqu’il rappelle que beaucoup d’enfants d’émigrés ont eu leur premier contact avec la littérature portugaise à travers de sa “Lusophone”. “J’ai construit des ponts, des fenêtres, c’est ce qui a de plus beau dans mon projet”.

Il y a près de six ans, il a décidé de se lancer un nouveau défit, et de réunir l’édition à da librairie, avec une longue carrière de libraire déjà. Pour cet homme, né à Meda, qui “pour réaliser son rêve, il a tout vendu” se lancer dans l’édition était devenu inévitable, essentiel pour la divulgation de ce qui se créé de mieux au sein de la communauté portugaise en France. Il a alors fondé la “Éditions Lusophone”, consacrée à l’édition d’auteurs lusophones, qui reflètent la richesse de la langue portugaise. De son catalogue qui compte déjà près de 60 œuvres, les œuvres de la collection “Testemunhos” sont les plus remarquables, où plusieurs œuvres de luso descendants ont déjà été publiées et de la collection “Universitária”, dédiée à la publication de thèmes philosophiques – comme “L’Universel et le Singulier dans la saudade – une philosophie de l’interculturel” de Adelino Braz, doctorat en philosophie par l’Université Paris I/ Panthéon Sorbonne – ainsi que “d’autres actes et thèmes universitaires”.

Pour João Heitor, qui s’assume comme un « libraire boulimique », une fonction qu’il exerce avec le plus grand plaisir, « le temps passe trop vite » et les deux heures qu’il passe de chez lui jusqu’au travail, il le passe à lire. À la librairie, il garde religieusement les manuscrits et certains des essais à éditer prochainement. Il avoue qu’il a en tant qu’« agent de divulgation de la culture portugaise », « des plans jusqu’à la fin de sa vie » et parmi ses rêves qui n’ont pas encore été réalisés se trouve aussi la publication d’un livre qu’il a écrit pour lequel il a déjà trouvé un titre – « Les mémoires d’un petit libraire portugais au Quartier Latin”.

(texte publié dans la revue “Magazine Artes” du moi d’avril 2007, revu en mai 2007) http://www.susanapaiva.com

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

“Na política, (não) vale tudo.”

Na política há quem pense, aja e diga que: “Na política vale tudo…”

Não aceito este pensamento fundamentalista, pois encaro a politica como algo com valores, regras e ética. Por isso, não posso aceitar a demagogia criada em torno das portagens nas SCUTS.

“Há que chamar os bois pelos nomes”, não adianta disfarçar e assobiar para o lado, como se tal não fosse nada connosco.

Todos sabemos o que o PSD sempre pensou em relação às SCUTs, senão leiam o Programa Eleitoral do PSD de 2005 e 2009. O mesmo partido que agora, em que as populações se mostram mais indignadas do que nunca, parece ter esquecido que tal foi uma exigência sua para aprovar o PEC e o Orçamento de Estado para 2011.
Aos agiotas e demagogos que no momento se querem esconderem da responsabilidade em relação à introdução das portagens, pergunto:
- Ouviram o que disse, há poucos dias o Sr. Rui Rio, quando afirmou “não aceito discriminação positiva para com as Scuts do Interior! Têm que pagar.”?

Não são necessárias mais palavras para caracterizar a irresponsabilidade e a demagogia com que o PSD se alimenta diariamente.

Poderão haver várias visões sobre a política governativa mas, em relação ao pagamento das Scuts, não é aceitável nem tolerável que esta hipocrisia e esta dissimulação que os senhores do PSD querem fazer passar aos portugueses não seja cabalmente esclarecida.

“Na política, não vale tudo.”

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Como seria noticiada hoje, em Portugal, a história do Capuchinho Vermelho...

TELEJORNAL - RTP1
"Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem... mas a actuação de um caçador evitou uma tragédia"

JORNAL DA NOITE - SIC
"Vamos agora dar-lhe conta de uma notícia de última hora. Uma menina foi literalmente engolida por um lobo quando se dirigia para casa da sua avó! Esta é uma história aterradora mas com um final feliz... o Sr. telespectador não vai acreditar mas, esta linda criança foi
retirada viva da barriga do lobo! Simplesmente genial!"

JORNAL NACIONAL - TVI
"... onde vamos parar, onde estão as autoridades deste país?! A menina ia sozinha para a casa da avó a pé! Não existe transporte público
naquela zona? Onde está a família desta menina? E a Comissão de Protecção de Menores? Tragicamente esta criança foi devorada viva por um lobo. Em épocas de crise, até os lobos, animais em vias de extinção, resolvem aparecer?? Isto é uma lambada na cara da actual
governação portuguesa."
Entretanto manifeste a sua opinião e ligue para:
707696901 se acha que a culpa é do lobo
707696902 se acha que a culpa é do capuchinho
707696903 se acha que a culpa é do governo

CORREIO DA MANHÃ
"Governo envolvido no escândalo do Lobo"

JORNAL DE NOTICIAS
"Como chegar à casa da avozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho"

Revista MARIA
"Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama"

A BOLA
"Lobo será reforço de inverno na Luz"

JOGO
"Mourinho quer Caçador no Real"

LUX
"Na cama com o lobo e a avó"

EXPRESSO
Legenda da foto: "Capuchinho, à direita, aperta a mão do seu salvador". Na reportagem, caixa com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Capuchinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.

PÚBLICO
"Lobo que devorou Capuchinho Vermelho seria filiado no PS"

O PRIMEIRO DE JANEIRO
"Sangue e tragédia na casa da avozinha"

CARAS
Ensaio fotográfico com Capuchinho na semana seguinte:
Na banheira de hidromassagem, Capuchinho fala à CARAS: "Até ser devorada, eu não dava valor à vida. Hoje sou outra pessoa."

MAXMEN
Ensaio fotográfico no mês seguinte:
"Veja o que só o lobo viu"

SOL
"Gravações revelam que lobo foi assessor político de grande influência"

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Perspectivas Presidenciais

São sempre diversas as leituras sobre o(s) resultado(s) das Presidenciais, os que perdem têm tendência a minimizar a derrota e os que vencem caiem na tentação de puxar pelos galões e demonstrar que a opção no seu candidato é a mais válida. Porém estas eleições podem e devem ser observadas de diferentes ângulos/perspectivas de modo a fazer-se um juízo final do que foi esta reeleição do Prof. Aníbal Cavaco Silva.

Números são números e, por isso, não há direito de refutar o que é demasiado evidente. Cavaco foi eleito com 52,9% dos eleitores que foram às urnas no passado domingo (23 de Janeiro). Portanto concluir-se-á que dos cerca de 46% dos eleitores que sufragaram o novo Presidente da República, deram a Cavaco uma votação menor do que há cinco anos atrás. Assim, com os resultados apresentados, concluo, que Cavaco foi eleito por apenas 25% da população portuguesa... e reeleito com a menor percentagem de todos os Presidentes alguma vez reeleitos.

Em relação, aos outros candidatos, tudo parece óbvio, Manuel Alegre não contou com a maioria dos Socialistas, já que estes, se dividiram entre outras candidaturas, como é evidenciado no estudo realizado pelo Semanário “Sol”, onde cerca de 80% do eleitorado socialista não votou em Manuel Alegre que assim saiu derrotado.

Na minha opinião, Fernando Nobre, foi à semelhança de Aníbal, um candidato com demasiadas gafes, histeria e alguma dose de esquizofrenia, não evidenciando clareza nos seus discursos. O País pode estar doente, mas não é este o antídoto necessário, para criar esperança e auto-estima nos Portugueses.

Francisco Lopes, pareceu lúcido e capaz de estar à altura de liderar brevemente o Comité Central do Partido Comunista Português e assim ser mais um discípulo do conservadorismo do PCP.

Defensor Moura, foi o protagonista do lado madrasta da política, nem sempre os melhores vencem, nem sempre é valorizado o que realmente interessa na política. Defensor Moura foi o melhor candidato nos debates, trouxe questões às quais o Sr. Aníbal não respondeu, mostrou um projecto presidencial, abordou, como nenhum outro candidato, a questão da Regionalização e outros temas de grande interesse para o País.
No entanto, não conseguiu mais do que um mísero (1,5%).

Por último, o sucesso do fenómeno José Coelho, apelidado como o “Tiririca da Madeira”. Certo é que a sua estratégia resultou e que deve ter criado alguma azia ao Alberto João. Um caso de estudo que pode contrariar toda a ciência politica.

Em suma, e no rescaldo eleitoral, tudo parece óbvio mas, o que mais pareceu de estranho foi a postura de Cavaco Silva. Julgo que na sua apoteose de vencedor, numa noite que parecia tranquila, algo terá corrido mal, soltou o fel, apresentando um discurso cheio de rancor e pouco comovente, numa altura em que o chefe de estado de um país como nosso, deveria transmitir esperança e alento para superarmos a crise que o País e o mundo atravessa. Cavaco fez precisamente o inverso.

Cavaco Silva foi o mais inábil Primeiro Ministro que há memória e, como não bastasse, na noite de Domingo, deixou cair a máscara e a aréola de imaculado, mostrou o outro lado, o lado desajeitado, o lado preconceituoso; Cavaco mostrou ser também o pior Presidente da Republica, de sempre, com um estilo desfigurado que fez ressuscitar fantasmas passados.
Em poucos minutos, perdeu o seu estado de graça. Cavaco não entrou para este novo mandato, com o pé esquerdo, mas sim, de pés juntos em que quis vingar-se de uma coisa que é mais do que óbvia na Democracia: Ninguém pode ser inimputável na política, todos têm o dever de responder e de esclarecer os cidadãos que os elegem…

“ Cavaco entrou a pés juntos, mas partiu, as suas próprias pernas…”

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal

A data de 25 de Dezembro não é a data real do nascimento de Jesus. No entanto, a Igreja entendeu que devia cristianizar as festividades pagãs que os vários povos celebravam por altura do solstício de Inverno.
Seja como for, Natal é Natal, é altura de partilha de afectos, de sentimentos e de recordações. Nessas muitas recordações, lembro-me sempre, de uma pessoa muito especial na minha vida, o meu Avô Joaquim Heitor, com ele, o nosso Natal era vivido de uma outra forma, com um sabor diferente, um estado de espírito distinto.
O Natal era vivido com a tradição e o respeito de gerações antepassadas, hábitos e rotinas que não permitiam o desvio a veleidades e modernismos que pudessem pôr em causa o mais importante do Natal, a partilha e o respeito pelo outro!
O Natal era de facto especial. Aprendemos que o mais importante da vida é a nossa dignidade e para que o sejamos, temos a incumbência de respeitar o próximo.
De uma forma simples e humilde vivemos momentos de grande fraternidade, de amizade e de crescimento humano.
Mais tarde, descobri que o Natal, também deve ser um momento de reflexão e de esperança para com o futuro. Aprendi a ouvir Cat Stevens, e porque há temas, que nos entram no coração, melodias deliciosas, mas de grande meditação.
Algumas são sempre muito especiais, de (re) ouvir, tais como, “Peace train”

Eu tenho estado mais feliz, pensando nas coisas boas que estão para vir
e eu acredito, só nas coisas boas que estão para vir

Tenho sorrido mais agora, sonhando com um mundo bem melhor
e eu acredito, sei que esse dia chegará

A causa para o fim da escuridão, logo chegará no comboio da paz
ele chegará a este país, haverá sossego outra vez

Eu tenho estado mais feliz, pensando nas coisas boas que estão para vir
e eu acredito, só nas coisas boas que estão para vir

Oh comboio da paz que vem apitando
está a chegar o comboio da paz
aproxima-se o comboio da paz
Sim, o Santo comboio da paz

Todos entram no comboio da paz
está chegando o comboio da paz

Coloca a tua bagagem, traz os teus amigos
ele está mais próximo, logo estará contigo…
Vem agora e juntar-se-á a nós, não estamos longe de ti
está cada vez mais próximo, logo tudo será real
Tenho chorado ultimamente, vendo o mundo como está
Porque temos que nos odiar? Porque não podemos viver felizes?

A causa para o fim da escuridão, logo chegará no comboio da paz
ele chegará a este país, haverá sossego outra vez

Um pouco de Utopia, faz sempre bem ao nosso espírito e alimenta a esperança que um dia este Mundo será melhor, com mais Paz, mais Alegria e que se possa viver, sempre, com o verdadeiro espírito Natalício.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Voto de Pesar apresentado pela Bancada do Partido Socialista de Mêda na Assembleia Municipal no dia 21 de Dezembro de 2010

Voto de Pesar, apresentado pela Bancada do Partido Socialista de Mêda na Assembleia Municipal no dia 21 de Dezembro de 2010 – Aprovado por unanimidade.


No passado dia 24 de Outubro faleceu o Sr. Padre José Maria de Lacerda, nascido a 1 de Abril de 1917, tendo portanto 93 anos de idade.

Não era um homem da terra, mas que chegou à terra muito novo.
Chegou simples, mas com dignidade no seu tempo.
Viveu simples e com parcos recursos.
Morreu simples e pediu para o enterrarem com os pés descalços.
A sua acção estendeu-se desde a Pastoral Religiosa, à intervenção Social, ao Ensino e Cultura.

Na sua pastoral religiosa divulgou a fé em Cristo, os princípios do catolicismo com racionalismo e com rigor. Pregava a Fé mas não alinhava em práticas de muito folclore, combatia o obscurantismo, a bruxaria, “as rezas” os defumadouros e não se lhe conhecem práticas de exorcismo. Catequizou e organizou o seu ensino aos mais jovens.

Era assíduo nas suas práticas da missa, dos terços e novenas. Esteve presente nos baptizados, nos crismas, nos casamentos e na morte de várias gerações. Conheceu todas as casas da Vila, todos os casais, sua composição e seus modos de vida. Poucas casas não eram visitadas. E se não era recebido era por que o não queriam ou por que ele não concordava com o modo de vida das pessoas em causa. Não era muito adepto da Fé transformada em actos de folclore.

A sua acção social notou-se: Liderou o movimento da Caritas, no após guerra. Roupas e comida foram distribuídas por casais de menos recursos. Construiu as primeiras casas para pobres no bairro do Barrocal. Recebeu crianças refugiadas no após guerra. No Patronato deu de comer a alguns mais desfavorecidos. Com as suas expensas educou vários jovens.

Levou a cabo a organização do Patronato onde funcionou o ensino pré-escolar nos anos 50 e foi escola de formação feminina em trabalhos manuais, costura, preparação para vida doméstica e práticas de higiene e limpeza. Lançou os movimentos da Acção Católica, da Juventude Operaria Católica. Até na Direcção da Adega Cooperativa ajudou. Congregou e recebeu sempre os emigrantes medenses.

Na Cultura desde muito cedo esteve ligado ao teatro dos jovens estudantes, promoveu sessões de cinema de entrada livre, esteve ligado ao grupo fundador do Jornal da Luz da Beira e no qual sempre colaborou. Promoveu viagens, abriu portas e ajudou muitos a olhar e verem os outros mundos e outras alternativas.

No Ensino foi o pai fundador do ensino do Secundário em Meda. Lançou as bases do Externato de Santo António de Meda nos anos 60. Por ali passaram gerações e gerações de jovens, que vieram a ser os administrativos, os bancários, os professores das nossas aldeias, os técnicos de contas, os topógrafos, os engenheiros, os economistas, os médicos, os enfermeiros, advogados e outras mais profissões do Portugal do 25 de Abril.

O Terreiro de São Domingos poderia muito bem vir a ser e merecer um busto de lembrança ao Padre José Maria de Lacerda, em frente á casa onde funcionou a primeira sala de aulas do Externato. E numa lápide de pedra poderia escrever-se: “Um homem para quem o saber valeu mais que o ter”.

A Assembleia Municipal de Meda manifesta o seu mais profundo pesar pela morte do Sr. Padre José Maria de Lacerda e manifesta à família as mais sentidas condolências.

Em honra à sua memória, proponho que este órgão guarde um minuto de silêncio, perpetuando a referência do Senhor Padre José Maria de Lacerda nesta cidade e neste concelho.

Mêda, 21 de Dezembro de 2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Sr. Vigário, (Padre Lacerda), Até Sempre...

Há momentos e pessoas que marcam as nossas vidas…
O Sr. Padre Lacerda, ou melhor, o Sr. Vigário ficará eternamente nas nossas memórias.
O seu falecimento, faz-nos pensar, reflectir na sua forma peculiar de estar e que muito contribui para o desenvolvimento da Mêda.
Uma memória colectiva é o seu legado, que merece eternamente ser homenageado, pessoa de carácter e de missão cumprida em prol de Gerações, permitindo que muitos Medenses, hoje, vivam melhor e tenham logrado das oportunidades que o Externato Santo António, abriu…
A sua obra, a sua vida, o seu olhar, a sua postura, o seu temperamento, fizeram dele uma pessoa invulgar.
Ao reconhecer as suas virtudes, admito também, as suas debilidades, que por vezes, com um temperamento tempestivo e uma moralidade conservadora tenham causado alguma insipidez.
Mas a sua vida, foi uma vida de causas, de missão e de benemérito a Gerações, que certamente não o irão esquecer!

Bem-haja Sr. Vigário…

Deixo, umas pequenas e humildes palavras que redigi na altura da despedida do Sr. Vigário e que foram publicadas (há já alguns anos).