quarta-feira, 11 de abril de 2012

INTERIORdaMENTE

Decidi escrever umas humildes palavras para o fantástico projecto da JS da Guarda sobre o "Interior" do nosso país.
Podem consultar em: http://interiormente.org/

INTERIORdaMENTE
No interior do nosso país está um território esquecido, abandonado e exorbitado!
Foram anos e anos de políticas falhadas, décadas e décadas de más estratégicas e de falta de visão para com o território.
Criaram-se estruturas e mais estruturas, organismos e mais organismos, tutelas sem razão ou sentido.
Olhar para o presente é um acto de coragem, um acto de resistência e inconformismo. As pessoas que vivem no Interior deste País são verdadeiros heróis, Heróis com letra grande, pois o seu território é vasto e a sua história é enorme.
Mas o seu futuro é tristonho, medonho e até mortal. Porém, há imponderáveis que poderão salvar este território, a história encarregar-se-á disso… o estrangulamento do litoral, a asfixia diária destes territórios superpovoadas levará inevitavelmente ao descontrolo, à ruptura do equilíbrio necessário para uma sobrevivência que parece tornar-se, a cada dia que passa, mais difícil para aqueles que vivem nos grandes centros urbanos.
Este estado poderá acidentalmente obrigar à fuga para o interior, na qual os que partem procuram o equilíbrio saudável para uma melhor qualidade de vida. A ocorrer este fenómeno de êxodo urbano, será necessário contrariar as intenções do poder central em desguarnecer o interior deste país.
Assistimos, nos últimos meses, ao esvaziamento e encerramento diário de serviços, ontem os SAP´s dos Centros de Saúde, hoje os Tribunais, amanhã os Serviços de Finanças, para depois de amanhã os CTT, na próxima semana as Escolas e sabe-se lá mais o quê… assim se desmantela um sistema de equidade para com as populações deste território.
O interior está farto de promessas e mais promessas, mais umas eleições e mais um discurso prometedor… passam as eleições e o interior mais interior, mais esquecido, mais ostracizado.
O diagnóstico está há muito tempo feito, sabemos quais as fragilidades e as fraquezas, por isso, só vislumbramos dois caminhos para a salvação deste território. Com efeito, ou de uma vez por todas o poder central se preocupa com o território e incentiva políticas de protecção de capitalização de investimento e serviços para o interior, ou então espera que o tempo se encarregue de trazer o que nos levou – PESSOAS.
As potencialidades deste Interior são imensas, nunca sendo demais relembrar a riqueza do seu inestimável património,a riqueza da sua produção endógena, a riqueza do turismo de natureza e porque não do turismo do silêncio, a riqueza do solo, a riqueza da flora e da fauna, e, até como disse Virgílio Ferreira, este território poderá ser um bom lar para morrer.
Mas tudo isto só poderá ser potencializado se o poder político for sensível, perseverante e firme na implementação de medidas que possibilitem e potenciem a almejada coesão territorial.
É no interior da mente que estão os afectos, os sentimentos, é no interior da mente que está a razão, é no interior da mente que está a lógica…é no interior da mente que estão as nossas potencialidades, para salvarmos o presente, projectando o futuro e recordando o passado!
Cláudio Heitor Rebelo
(Psicopedagogo)
(um Português que decidiu deixar o Litoral por acreditar no Interior deste país)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Um ano depois...

Recorrendo a uma analepse, estamos há um ano atrás e o 1º ministro José Sócrates apresenta o PEC IV com o acordo da UE e da Sr.ª Merkel. Este acordo evitaria a entrada da Troika e, assim respiraríamos, à semelhança de outros países europeus, com algum alivio e desafogo, não tendo que recorrer a ajudas externas. Eis que então, que o líder da oposição Passos Coelho mais o “pantelho” do Catroga, com a aquiescência do Anibal, diz ao país: “Não aceitamos mais sacrifícios aos portugueses, por isso votamos contra este PEC IV”. A história segue como sabemos… eleições, promessas e certezas do líder do PPD/PSD: “ Comigo a ideia de cortar os subsídios de férias ou de Natal seria um DISPARATE EXTRAORDINÁRIO!” Eis que fez o contrário.

Agora promete, ele e o Gaspar, que em 2015 haverá novamente subsídios pois bem, em 2015 já não será 1º ministro, nem o Gaspar o profeta dos números… é a sina dos governos de coligação, nunca chegam ao fim!

Passos Coelho prometeu que não iria à carteira dos mais desprovidos. Foi! Que não aumentava impostos, lol…Passos Coelho declarou que não continuava com aumentos escandalosos. Aumentou. Prometeu um governo mais pequeno, com menos assessores e mordomias, MENTIU, aumentou o nº de Secretarias de Estado e não podemos comparar as assessorias pois, a qualquer momento, surge mais uma nomeação… Comprometeu-se a não referir as políticas do anterior governo. Quebrou esse compromisso e sempre que não tem argumentos para justificar as suas incompetências, lá apresenta ele o homem, o causador de todas as crises, nacional e internacional, o grande causador de toda a crise na Grécia, na Espanha, na Itália, na Irlanda, na Bélgica e quiçá nos Estados Unidos…José Sócrates.

Enfim, não vamos falar das nomeações da Caixa Geral de Depósitos e de outras em tudo semelhantes nas quais o único critério é o cartãozinho do PPD… Sabemos como as coisas funcionam mas quem não quer ser lobo não lhe veste a pele e lembramo-nos bem das promessas eleitorais: “Comigo não haverá promiscuidade nas nomeações… Guarda, Maio de 2011”.

O que todos sabemos e os portugueses sabem-no muito bem, é que:
“UM ANO DEPOIS, COM PASSOS COELHO, os JUROS passaram de 8,5% para 12,7% e DESEMPREGO passou para 15%. O IVA, na electricidade e gás, passou de 6% para 23% e na restauração de 12% para 23%. OS COMBUSTÍVEIS batem recordes históricos, a administração pública ficou sem os subsídios de férias e Natal; a ECONOMIA afundou-se e o indicador de CONFIANÇA está em mínimos históricos. O DÉFICE ORÇAMENTAL aumentou para 4,5% e a DÍVIDA PÚBLICA passou de 107,8% para 112,5%. A TRAGÉDIA DA DIREITA TROUXE A TRAGÉDIA AO PAÍS!” (gotadeagua53@blogspot.com)

Este (des)governo há muito que perdeu a graça, porém a oposição necessita de se reencontrar e urge aparecer um líder que faça os portugueses acreditarem que este neoliberalismo levará, por fim, o país ao suicídio.

terça-feira, 20 de março de 2012

Aumentos salariais...

Há quanto tempo é que não se ouve falar em aumentos salariais? tudo aumenta com excepção os vencimentos, isto é, não contando com os Mexias, Catrógas, Pinas Mouras, Coelhos, Nogueiras Leites e tantos outros...
Aumento salarial, lol, para quando?

terça-feira, 13 de março de 2012

Demita-se, senhor Primeiro-Ministro

Mais um texto para reflectir sobre esta desorientação governamental...
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Nicolau Santos, na sua habitual coluna do semanário "Expresso", desnudava a alma, com estes termos? Sr primeiro-ministro, depois das medidas que anunciou sinto uma força a crescer-me nos dedos e uma raiva a nascer-me nos dentes?. Também eu, senhor Primeiro-Ministro. Só me apetece rugir!...
O que o Senhor fez, foi um Roubo! Um Roubo descarado à classe média, no alto da sua impunidade política! Por isso, um duplo roubo: pelo crime em si e pela indecorosa impunidade de que se revestiu. E, ainda pior: Vossa Excelência matou o País!Invoca Sua Sumidade, que as medidas são suas, mas o déficite é do Sócrates! Só os tolos caem na esparrela desse argumento. O déficite já vem do tempo de Cavaco Silva, quando, como bom aluno que foi, nos anos 80, a mando dos donos da Europa, decidiu, a troco de 700 milhões de contos anuais, acabar com as Pescas, a Agricultura e a Industria. Farisaicamente, Bruxelas pagava então, aos pescadores para não pescarem, e aos agricultores para não cultivarem.
O resultado, foi uma total dependência alimentar, uma decadência industrial e investimentos faraónicos no cimento e no alcatrão. Bens não transaccionáveis, que significaram o êxodo rural para o litoral, corrupção larvar e uma classe de novos muitíssimo-ricos. Toda esta tragédia, que mergulhou um País numa espiral deficitária, acabou, fragorosamente, com Sócrates. O déficite é de toda esta gente, que hoje vive gozando as delícias das suas malfeitorias. E você é o herdeiro e o filho predilecto de todos estes que você, agora, hipocritamente, quer pôr no banco dos réus?Mas o Senhor também é responsável por esta crise. Tem as suas asas crivadas pelo chumbo da sua própria espingarda.
Porque deitou abaixo o PEC4, de má memória, dando asas aos abutres financeiros para inflacionarem a dívida para valores insuportáveis e porque invocou como motivo para tal chumbo, o carácter excessivo dessas medidas. Prometeu, entretanto, não subir os impostos. Depois, já no poder, anunciou como excepcional, o corte no subsídio de Natal. Agora, isto! Ou seja, de mentira em mentira, até a este colossal embuste, que é o Orçamento Geral do Estado.
Diz Vossa Eminência que não tinha outra saída. Ou seja, todas as soluções passam pelo ataque ao Trabalho e pela defesa do Capital Financeiro. Outro embuste. Já se sabia no que resultaram estas mesmas medidas na Grécia: no desemprego, na recessão e num déficite ainda maior. Pois o senhor, incauto e ignorante, não se importou de importar tão assassina cartilha. Sem Economia, não há Finanças, deveria saber o Senhor. Com ainda menos Economia (a recessão atingirá valores perto do 5% em 2012), com muito mais falências e com o desemprego a atingir o colossal valor de 20%, onde vai Sua Sabedoria buscar receitas para corrigir o déficite? Com a banca descapitalizada (para onde foram os biliões do BPN?), como traçará linhas de crédito para as pequenas e médias empresas, responsáveis por 90% do desemprego?O Senhor burlou-nos e espoliou-nos.
Teve a admirável coragem de sacar aos indefesos dos trabalhadores, com a esfarrapada desculpa de não ter outra hipótese. E há tantas! Dou-lhe um exemplo: o Metro do Porto. Tem um prejuízo de 3.500 milhões de euros, é todo à superfície e tem uma oferta 400 vezes!!! superior à procura. Tudo alinhavado à medida de uns tantos autarcas, embandeirados por Valentim Loureiro. Outro exemplo: as parcerias publico-privadas, grande sugadouro das finanças públicas. Outro exemplo: Dizem os estudos que, se V.Exa cortasse na mesma percentagem, os rendimentos das 10 maiores fortunas de Portugal, ficaríamos aliviadinhos de todo, desta canga deficitária. Até porque foram elas, as grandes beneficiárias desta orgia grega que nos tramou. Estaria horas, a desfiar exemplos e Você não gastou um minuto em pensar em deslocar-se a Bruxelas, para dilatar no tempo, as gravosas medidas que anunciou, para Salvar Portugal!
Diz Boaventura de Sousa Santos que o Senhor Primeiro-Ministro é um homem sem experiência, sem ideias e sem substrato académico para tais andanças. Concordo! Como não sabe, pretende ser um bom aluno dos mandantes da Europa, esperando deles, compreensão e consideração. Genuina ingenuidade! Com tudo isto, passou de bom aluno, para lacaio da senhora Merkel e do senhor Sarkhozy, quando precisávamos, não de um bom aluno, mas de um Mestre, de um Líder, com uma Ideia e um Projecto para Portugal.
O Senhor, ao desistir da Economia, desistiu de Portugal! Foi o coveiro da nossa independência. Hoje, é, apenas, o Gauleiter de Berlim.
Demita-se, senhor primeiro-ministro, antes que seja o Povo a demiti-lo.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O fantasma de Paris!

Há pouco mais de um mês li um artigo do Miguel Sousa Tavares, no Expresso, que explica bem o poder de José Sócrates. O poder de um verdadeiro politico e que o coloca, na minha modesta opinião, o melhor 1º Ministro de todos os tempos.

Mantenho a ideia que um dia será feita a devida justiça a José Sócrates. Um politico determinado que governou durante 6 anos o país e que tinha uma estratégia para o modernizar, torná-lo num país da linha da frente, porém, houve situações de ordem exógena que tornaram impossível a sua "pacifica" resolução.


Mas o tempo o dirá e até lá convém reflectir lendo este e outros artigos que paulatinamente vêm colocar um pouco de verdade.
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O fantasma de Paris

Uma curta e inócua declaração de José Sócrates em Paris, numa palestra informal, foi o suficiente para agitar todo o país político e desenterrar os ódios adormecidos contra o homem que nos governou até Junho passado. Como qualquer pessoa de boa fé percebeu, mesmo truncada e fora de contexto e mesmo antes de explicada pelo seu autor, a frase de Sócrates limitava-se a constatar uma evidência: que nem Portugal nem qualquer outro país pode ser confrontado com a demonstração de que seria capaz de pagar de imediato toda a sua dívida externa; tem apenas de a gerir, mantendo-a sob controlo. Para quem não saiba, Portugal acabou de pagar, há um par de anos, dívidas que vinham do tempo da implantação da República e o mesmo fez a Alemanha, por exemplo, com dívidas dos anos vinte do século passado. A razão por que os países acumulam dívida é a mesma razão pela qual a acumulam as empresas e as famílias: para se poderem desenvolver. Salazar não acumulou dívidas mas, em compensação, entregou o país mais pobre da Europa, a seguir à Albânia. Os países não são supostos poder e dever pagar toda a sua dívida de imediato, por intimação dos mercados ou das agências de rating, tal como não são as famílias e as empresas. Aquilo que interessa, e que Sócrates destacou, é saber gerir a dívida: não deixar que o seu custo, o chamado serviço da dívida (amortização mais juros) atinja um ponto em que se torna mais elevado do que os benefícios proporcionados pelos empréstimos contraídos – porque aí o que estamos a fazer é a roubar as gerações seguintes. Foi isso que nos escapou nos últimos anos – a nós e a toda a Europa e Estados Unidos. Assim, tanto Maastricht como a recente cimeira europeia de Bruxelas, não pretenderam proibir em absoluto o défice e as dívidas, mas estabelecer-lhes limites considerados sustentáveis – 3% do PIB antes e 0,5% agora para o défice, e 60% para a dívida acumulada.



A esta luz, temos de ler nas reacções quase histéricas às palavras de Sócrates (exceptuou-se Passos Coelho), uma explicação de outro tipo: o país, civil e político, procura afanosamente um bode expiatório para os males que o atingiram e José Sócrates é o alvo talhado à medida. Pouco importa, aliás, que a crise tenha nascido de fora para dentro e que atinja por igual todo o mundo em que vivemos: encontrar um culpado nosso serve de catarse para nos livrar a todos da culpa colectiva pelos erros que foram exclusivamente nossos. Convém, pois, fazer um exercício que os portugueses detestam: refrescar a memória.



José Sócrates começou a governar em 2005, recebendo um país com um défice de 6,83%, após dois governos PSD/CDS, numa altura em que não havia crise alguma, nem problema algum na economia e nos mercados. Para mascarar um défice inexplicável, os ministros das Finanças desses governos, Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, foram pioneiros na descoberta de truques de engenharia orçamental para encobrir a verdadeira dimensão das coisas: despesas passadas para o ano seguinte e receitas antecipadas, e nacionalização de fundos de pensões particulares, como agora.



Em 2009, quando terminou o seu primeiro mandato e se reapresentou a eleições, o governo de Sócrates tinha baixado o défice para 2,8%, sendo o primeiro em muitos anos a cumprir as regras da moeda única. O consenso em roda da política orçamental prosseguida e do desempenho do ministro Teixeira dos Santos era tal que as únicas propostas e discordâncias da oposição, de direita e de esquerda, consistiam sistematicamente em propor mais despesa pública. E, quando se chegou às eleições, o défice nem foi tema de campanha, substituído pelo da “ameaça às liberdades” (por favor, consultem os jornais da época).



Logo depois, rebentou a crise do subprime nos Estados Unidos e Sócrates e todos os primeiros-ministros da Europa receberam de Bruxelas ordens exactamente opostas às que agora dá a sra. Merkel: era preciso e urgente acorrer à banca, retomar em força o investimento público e pôr fim à contenção de despesa, sob pena de se arrastar toda a União para uma recessão pior do que a de 1929. E assim ele fez, como fizeram todos os outros, até que, menos de um ano decorrido, os mercados e as agências se lembraram de questionar subitamente a capacidade de endividamento dos países: assim nasceu a crise das dívidas soberanas. Porém, não me lembro de alguém ter questionado, nesse ano decisivo de 2009, a política despesista que Sócrates adoptou, a conselho de Bruxelas. Pelo contrário, quando Teixeira dos Santos (o único que nunca deixou de querer controlar o défice), começou a avançar com os PEC, todo o país – partidário, autárquico, empresarial, corporativo e civil – se levantou, indignado, a protestar contra os “sacrifícios” e a suave subida de impostos. Passos Coelho quase chorou, a pedir desculpa aos portugueses por viabilizar o PEC 3, que subia as taxas máximas de IRS de 45 para 46,5% (que saudades!). E há um ano (se não se lembram, consultem os jornais), para viabilizar o orçamento ainda em vigor, mandou Eduardo Catroga reunir-se em longas e dramáticas sessões com Teixeira dos Santos em que aquilo que os separava era garantir um pouco mais de despesa do Estado para satisfazer as bases sociais-democratas.



O erro de Sócrates foi exactamente o de não ter tido a coragem de governar contra o facilitismo geral e a antiquíssima maldição de permitir que tudo em Portugal gire à volta do Estado: os contratos, as empreitadas, os empregos - até as fundações privadas. Quando ele, na senda dos seus antecessores desde Cavaco Silva (que foi o pai do sistema) se lançou na política de grandes empreitadas e obras públicas, escrevi aqui incansavelmente contra as auto-estradas inúteis, as barragens da EDP, um TGV e novos-ricos, um terminal de contentores em Lisboa sem sentido nem transparência alguma, uma nova ponte e um aeroporto para Lisboa que, todos, sem excepção, defenderam. O que me lembro de ter visto, então, foi toda a gente – empresários, banqueiros, autarcas, confederações patronais e centrais sindicais – explicarem veentemente que não se podia parar co o “investimento público”, e vi todas as corporações do país – professores, magistrados, médicos, militares, agricultores – baterem-se com unhas e dentes e apoiados por partidos de direita e de esquerda contra qualquer tentativa de reforma que pusesse em causa os seus privilégios, sustentados pelos dinheiros publicos. O erro de Sócrates foi ter desistido e cedido a esta uninimidade de interesses instalados, que confunde o crescimento económico com a habitual tratação entre o Estado e os seus protegidos. Mas ainda me lembro de um governo presidido por Santana Lopes apresentar um projecto de TGV que propunha, não uma linha Lisboa-Madrid, mas sim cinco linhas, incluindo a fantástica ligação Faro-Huelva em alta velocidade. E o país, embasbacado, a aplaudir!



Diferente disso é a crença actual de que a dívida virtuosa – a que é aplicada no crescimento sustentado da economia e assegura retorno – não é essencial e que a única coisa que agora interessa é poupar dinheiro seja como for, sufocando o país de impostos e abdicando de qualquer investimento público que garanta algum futuro. Doentia é esta crença de que governat bem é empobrecer o país. Doente é um governante que aconselha os jovens a largarem a “zona de conforto do desemprego” e emigrarem. Doente é um governo que, confrontado com mais de 700.000 desempregados e 16.000 novos a cada mês, acha que o que importa é reduzir o montante, a duração e a cobertura do subsídio de desemprego. Doente é um governo que, tendo desistido do projecto de transformar Portugal pioneiro dos automóveis eléctricos, vê a Nissan abandonar, consequentemente, o projecto de fábrica de baterias de Aveiro, e encolhe os ombros, dizendo que era mais um dos “projectos no papel do engº. Sócrates”. Doente é um governo que acredita poder salvar as finanças públicas matando a economia.



O fantasma do engº. Sócrates pode servir para o prof. Freitas do Amaral mostrar mais uma vez de que massa é feito, pode servir para uns pobres secretários de Estado se armarem em estadistas ou para os jornais populistas instigarem a execução sumária do homem. Pode servir para reescrever a história de acordo com a urgência actual, pode servir para apagar o cadastro e as memórias inconvenientes e serve, certamente, para desresponsabilizar todos e cada um: somos uns coitadinhos, que subitamente nos achámos devedores de 160.000 milhões de euros que ninguém, excepto o engº. Sócrates, sabem em que foram gastos. Ninguém sabe?



Miguel Sousa Tavares no Expresso de 17/12/2011

domingo, 29 de janeiro de 2012

Grito de um livreiro!

Porque conheço e convivo com o meu tio livreiro e com alguns dos seus momentos de voluntariado por uma causa bem nobre, a de divulgar a nossa literatura, divulgar o nosso genoma literário... no fundo, a forma de levar o pensamento, o sentir português aos quatro cantos do mundo...
Depois de sentir as dificuldades deste português que sempre quis divulgar a cultura lusófona na Cidade das Luzes, resistindo a este mundo globalizante, sem regras e ou ética. Lá ia resistindo às Fnac´s e outras grandes magazines que, sem dar hipótese à concorrência vendiam pacotes de boa e má literatura, enfim, tudo o que o mundo actual nos oferece, ao preço da chuva. Os tempos são outros, são tempo de abate, matam-se sem dó os livreiros, uma classe sem sindicato, uma classe sem apoios, como consequência fecham-se livrarias, ontem a Lusóphone, hoje a livraria Portugal, amanhã talvez a Almedina e, para a próxima semana, serão umas tantas a encerrar as portas e a liquidar a Literatura.
A propósito, deixo um pequeno texto do meu tio João que postou no meu mural do facebook, no dia que completei 37 primaveras. É um grito que me emocionou e que não poderia deixar de publicar.

Desculpem-me, deixem-me gritar: Merda! Onde estão os Homens da minha Terra? Onde estão os poetas? Os pintores? Os escritores? Os intelectuais? morreram todos? Após um dia de trabalho à volta dos livros, leio uma mensagem de um grupo de amigos livreiros noticiando o próximo encerramento da Livraria Portugal, ali mesmo no Chiado. Sou do tempo em que não havia internet e que os portes dos livros para o estrangeiro custavam, às vezes, mais do que os livros e era obrigado agarrar na carrinha e saltar as fronteiras à procura de"contrabando cultural".

Quando chegava a Lisboa, a primeira coisa que fazia, antes de passar nos editores, era de ir à LIVRARIA PORTUGAL a ver as novidades, as cores das capas,o cheiro dos livros e, sobretudo, falar com os meus Amigos livreiros que estavam ao corrente de tudo que era livro. Com o carro carregado e preste a voltar à França recebia sempre um telefonema que dizia "João Heitor preciso dum livro..." e corria eu à Portugal porque era o sitio mais certo para encontra-lo. E assim nascem as amizades entre livreiros e o desconto da "praxe" nem era preciso "regatear".

Fecha a LIVRARIA CAMÕES no Rio de Janeiro e fecha agora a LIVRARIA PORTUGAL em Lisboa, ali mesmo no Chiado onde se ouvem ainda os passos de um Fernando Pessoa, de um Eça, de um José Régio, Almada Negreiros para não falar do Saramago e outros que por ali andam e andarão até à destruição do Chiado.

Um país sem livreiros e sem livrarias é um país mais tacanho e menos culto, é mais arrogante e menos livre, é menos feliz e com um futuro menos risonho. Na minha Terra as portas dos lugares onde transita o saber, fecham-se. Na minha Terra se abrem AS PORTAS DA EMIGRAÇÃO... Ah Terra em que os políticos te transformaram em Terra Madastra em terra que não pão...


Um abraço para todos os que fizeram desta livraria, com o nome de Portugal, uma referência para todas as livrarias e livreiros portugueses.


João Heitor, livreiro e editor em Paris (espécie de animal em vias de extinção mas mas não protegida).

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Qual a saída para toda esta desgraça?

O País ainda não acordou... vive numa profunda letargia que ofusca a realidade...
O início do próximo ano está aí e tudo será diferente, diferente para pior. Tudo será mais caro, as portagens, as taxas moderadoras, a luz, a água, as telecomunicações, os benefícios fiscais, os transportes ditos públicos, em suma tudo será mais caro, em claro contraste com os ordenados.

Torna-se natural perguntar: Qual a saída para toda esta desgraça?

Emigrar é a resposta dada pelos senhores governantes...ao que parece que existe um excesso de portugueses em Portugal.
Não é nenhuma novidade pois há algumas semanas, um secretário de Estado para a Juventude apontava a Emigração como caminho para a Salvação dos estudantes. Agora há poucos dias, o Sr. 1º Ministro disse que os professores desempregados deviam emigrar para os países lusófonos, nos quais encontrariam a felicidade. Até parece que os incentivos à língua Portuguesa é a grande paixão deste governo! Para compor o ramalhete, veio o dr. Telmo Correia, com a sua sabedoria cristã dizendo que este é o caminho, este é o destino.

Pois bem, e os velhos? como escreveu Baptista Bastos, "Que fazer dos velhos que enchem os jardins e a paciência de quem governa? Os velhos não servem para nada, nem sequer para mandar embora, não produzem a não ser chatices, e apenas valem para compor o poema do O'Neill, e só no poema do O'Neill eles saltam para o colo das pessoas. Os velhos arrastam-se pelas ruas, melancólicos, incómodos e inúteis, sentam--se a apanhar o sol; que fazer deles?



Talvez não fosse má ideia o Governo, este Governo embaraçado com a existência de tantos portugueses, e estorvado com a persistência dos velhos em continuar vivos, resolver oferecer-lhes uns comprimidos infalíveis, exactos e letais. Nada que a História não tivesse já feito. Os celtas atiravam os velhos dos penhascos e seguiam em frente, sem remorsos nem pesares. "


Porém existem ainda outros problemas, como a fome e esta é transversal desde os mais novos aos mais velhos. Hoje as escolas, servem de refeitório e de grande ajuda para crianças de barriga vazia. Graças a medidas reformistas do anterior executivo permite que hoje a "escola" seja um albergue de felicidade. A escola tornou-se apetecível para muitas crianças, mais do que nunca é o local em que podemos aprender, aprender e também comer...Alimentar o ego, alimentar a esperança que um dia tudo será diferente, tudo será melhor.

Porém, existem escolas já não têm o que lhes dar. Há cantinas que reabrem, mesmo durante as férias, e sempre se arranja uma carcaça, um leite morno, nada mais, oferecidos por quem dá o pouco que não tem.

Aliada à fome virá mais miséria, mais insegurança, mais violência, mais assaltos, mais vandalismos, mais roubos e uma maior instabilidade social. Como se pôde assistir aos últimos acontecimentos, este foi o mês das greves, foi mês de polémicas entre PSD e PS, foi mês de discussão sobre pontes, feriados e férias, foi o mês da polémica introdução de portagens nas antigas Scut.... Este é o tónico para o virar de ciclo, para o virar de rumo, para o aumentar de muitas dores de cabeça para os portugueses...

São muitos os silêncios que não auguram nada de bom para os próximos tempos e como escreveu há dias uma professora no facebook uma carta ao Senhor primeiro-ministro, em que dizia:" vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares.

Quanto a mim, tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, senhor primeiro-ministro. Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.

Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu Renault Clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiro-ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar…

Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si.

Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que não se torne também eleum excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores – e cada vez mais raros – valores: um ser humano em formação.

Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca."

Por último, termino prefaciando uma vez mais BB:
"Para que serve este Governo?, a quem favorece, a quem brinda, a quem satisfaz? Podem, em consciência, os seus panegiristas passar ao lado das infâmias a que assistimos, e continuar omissos ou desbragadamente cortesãos? Podem. É ao que temos vindo a assistir. O Governo administra o ódio e o desprezo com a indiferença gélida de quem não é por nós. Diz-se que o anterior Executivo vivia da e na mentira. Este subsiste de quê?"

domingo, 18 de dezembro de 2011

O Governo mente e o Interior sente...

Para conhecimento e tratamento informativo o Partido Socialista de Meda apresentou uma Nota Informativa relativa ao pagamento de portagens “O Governo Mente e o Interior Sente”.

O Partido Socialista de Mêda sempre defendeu a isenção das portagens nas A23, A24 e A25. Estas vias poderiam servir de alavancagem para que fosse possível a fixação de empresas e assim possam contrariar a triste sina do êxodo e do estrangulamento das populações do território de uma parte significativa do nosso País.


A discriminação positiva é uma discriminação mais do que justa com as pessoas que resistem em viver no Interior do País e em especial no Distrito da Guarda. O PS Mêda exige justiça com as suas populações pois não usufruímos do investimento de todas aquelas empresas públicas localizadas no litoral que geram emprego mas também divida como o Metro, a Carris e tantas outras para as quais todos os portugueses sem excepção, dos quais fazemos parte, contribuímos com os nossos impostos, de forma a que as mesmas gerem emprego e serviços, dos quais não usufruímos, para que possam melhorar a nossa qualidade de vida.

O PS Mêda apresentou há mais de um ano uma moção na Assembleia Municipal de Mêda em que repudiava qualquer medida que discriminasse, uma vez mais, o nosso concelho, o nosso distrito e a nossa região.
Assim, alertamos que somos um Concelho com baixo rendimento percapita no Distrito e no País. A esta situação alia-se o facto de não sermos contemplados por uma qualquer via estruturante de grandes dimensões, entenda-se auto-estrada, salientamos o IP2, no entanto este eixo não permite que possamos deslocarmo-nos à sede do Distrito sem custos.

Face a esta conjuntura, fomos obrigados acreditar que só poderá ser um engano o facto de quererem que aqueles que nos 37 anos de Democracia não usufruíram de qualquer tipo de infra-estruturas, IP ou AE, sejam os primeiros e quase únicos deste Distrito a ter que pagar portagens na A23 e A25, únicos eixos que nos poderão levar ao desenvolvimento. No entanto, depois de muitas incertezas e introduzidas a cobrança de portagens nas Scut´s no passado dia 8, o PS Mêda pergunta:
Onde estão contempladas as 10 isenções por mês a todos os Medenses que aderiram à dita “Isenção Positiva” e que pretendem deslocar-se à Capital de distrito (cidade da Guarda)?


Porque queremos saber, o porquê de estarem a ser cobradas portagens no pórtico da A25 designado por IP2 Norte e não estão a ser descontadas ou contabilizadas as 10 isenções...

Esta situação é tão caricata que, uma deslocação com a passagem de mais que um pórtico é contabilizada nas 10 isenções mensais e na passagem de apenas um pórtico não permite qualquer isenção.


É caso para se dizer: Fomos enganados, mas não ficaremos parados...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Os Amigos

Recordar Al Berto (Alberto Raposo Pidwell Tavares), conhecio-o de forma muito fugaz, mas de muito cedo que me fascinou a sua escrita.

...................Os Amigos............................

no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite

prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência

De: Al Berto, in 'Sete Poemas do Regresso de Lázaro'

domingo, 4 de dezembro de 2011

A crise está aí!

A crise está aí e mais do que a crise económica é a crise das palavras...todos nos tentamos desculpabilizar pois o estado de pecado no homem não é um facto, senão apenas a interpretação de um facto, a saber: de um mal-estar fisiológico, considerado sob o ponto de vista moral e religioso. O sentir-se alguém «culpado» e «pecador», não prova que na realidade o esteja, como sentir-se alguém bem não prova que na realidade esteja bem...segundo Nietzsche.


A crise deveu-se a muitos factores, erros do passado e do presente, conjunturas complexas e imprevisiveis, uns apontam que o maior factor desta crise se deve ao comércio externo, terá sido a produção de bens, a falta de inovação, a emigração, foi a imigração, resultados de uma civilego necessária para assegurar o estado social, a fuga a fundos, a fuga ao fisco, um aumento da economia paralela, o aumento da corrupção, foram as off-shores, foi a especulação financeira, será o darwinismo no mundo financeiro, a bolha imobiliária, a falta de crédito...


Os Portugueses apontam vários responsáveis no entanto, a guerra entre o público e o privado já começou, espero que as reporcussões não sejam maiores mas os próximos tempos tudo entrará em reboliço e seja de quem for a culpa, esta não poderá morrer solteira. Enquanto esperamos que o tempo se encarregue de julgar, deixo dois pontos de vista. Dois artigos, o primeiro da autoria de Henrique Raposo (Jornal Expresso) e o segundo de Pedro Santos Guerreiro (Jornal de Negócios).
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“Caro funcionário da República, hoje sou apenas o portador de uma mensagem do meu primo (sim, as bestas reacionárias também têm primos). O meu primo trabalha numa empresa que, como tantas outras, enfrenta imensas dificuldades. A hipótese da falência deixou de ser uma coisa longínqua e, por arrastamento, o desemprego passou a ser um cenário possível. E é assim há muito tempo. Há muito tempo que este pesadelo está ali ao virar da esquina. Portanto, a mensagem do meu primo começa assim: V. Exa. está disponível para trocar o seu vínculo-vitalício-ao-Estado por um contrato-ameaçado-pela-falência-e-pelo-desemprego? Quer trocar 12 meses certíssimos por 14 meses incertos?

Depois, o meu primo gostava de compreender uma coisa. Se a empresa dele fechar, ele cairá no desemprego e terá de procurar emprego novo. Mas se a repartição pública de V. Exa. fechar, o meu caro funcionário da República irá para o "quadro de excedentários". Por que razão V. Exa. tem direito a esta rede de segurança que mais ninguém tem? Porquê? Em anexo, o meu primo gostava de propor outra troca: V. Exa. está disponível para trocar a ADSE pelo SNS? Sim, porque o meu primo tem de ir aos serviços públicos (SNS), mas V. Exa. pode ir a clínicas e hospitais privados através da ADSE. Quer trocar? E, depois de pensar na ADSE, V. Exa. devia pensar noutro pormenor: a taxa de absentismo de V. Exa. é seis vezes superior à das empresas normais, como aquela do meu primo. E, ainda por cima, o meu primo não tem uma cantina com almoços a 3 euros, nem promoções automáticas. Mas vai ter de trabalhar mais meia-hora por dia.

Para terminar, o meu primo está muito curioso sobre uma coisa: das milhares e milhares de famílias que deixaram de pagar a prestação da casa ao banco, quantas pertencem a funcionários públicos? Quantas? Eu aposto que são pouquíssimas. Portanto, eu e o meu primo voltamos a colocar a questão inicial: V. Exa. quer trocar? V. Exa. quer vir trabalhar para uma empresa real da economia real que pode realmente entrar em falência e atirar os empregados para a realidade do desemprego? V. Exa. quer trocar a síndrome do funcionário público pela síndrome do desemprego?”
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Missionários públicos
“Dava 24% do seu salário em troca da segurança de emprego vitalício? Muitos funcionários públicos deram, mesmo que ninguém lhe tenha perguntado nada. Com os pensionistas, pior: ninguém lhes ouve sequer um pio. A decisão poupa milhões. Mas sendo uma medida com muito corpo, ela não tem pés nem cabeça. Acha mesmo que "é bem feita"?... Que é assim que se reestrutura o Estado? Muitos acham. Há uma colectividade numerosa que defende estes cortes com base em dois argumentos: o de que os funcionários públicos têm segurança no trabalho; e que ganham mais do que o sector privado. Esta raiva contra a Função Pública é já um sintoma de cisão social. Mas está assente em várias falácias. Os trabalhadores com contrato de função pública têm segurança do trabalho (apetece dizer: por enquanto). Mas estes cortes afectam muitos outros que a não têm: os funcionários das empresas públicas, de empresas municipais e de institutos que venham a ser extintos, se tiverem contrato individual de trabalho. Mas a principal falácia é outra: a de que os funcionários públicos ganham mais. Isso é verdade... em média.

Segundo estudos do Banco de Portugal, os funcionários públicos auferem entre 10% e 20% de remuneração superior à iniciativa privada. No entanto, são os que estão nas funções de baixas qualificações que ganham mais, o que se inverte ao longo da hierarquia. Ou seja, quanto "pior" se é, mais se ganha face às empresas; quanto "melhor" se é, pior se ganha comparando com a iniciativa privada. Esta disfunção salarial é conhecida e não é resolvida, antes agravada, por este corte de salários cego. Quem mais ganha terá um corte superior a quem menos ganha, o que sendo socialmente justo, alarga o fosso face à iniciativa privada. O incentivo para sair da Função Pública (ou para baixar os braços) é agora grande e aqueles que o poderão fazer são os melhores.


Há quem ache que são todos malandros e portanto é correr com eles. Essa sanha é míope: a desvalorização da Função Pública tem sido um pecado contra o Estado quase tão grande quanto foi a engorda do número dos seus quadros. O problema da Função Pública é ser grande demais para o que faz (ou produzir de menos para a dimensão que tem), estar muitíssimo mal chefiada, mal distribuída e enfeudada. Seria estrategicamente melhor para o Estado ter feito um despedimento do que este corte cego. Os custos sociais, no entanto, seriam impraticáveis, tendo em conta o desemprego. Ver tanta gente a exultar com esta navalhada é inquietante. Como o é ver que ninguém parece querer falar dos pensionistas, a quem também se retiram 14% das pensões dos próximos dois anos. Talvez seja porque os pensionistas não tenham sindicato... Mas não duvide: o Estado está a falhar num contrato que assinou. E se o Governo diz que 80% dos pensionistas não serão afectados, isso só significa que 80% das pensões são baixas. O Governo ainda não explicou as contas para um corte tão profundo. O desvio do défice do primeiro semestre explica muito mas não tudo. Parece claro que o corte prometido da despesa intermédia está a falhar, e que a reforma do Estado avança como um caracol. E que, portanto, Vítor Gaspar pôs cinto e suspensórios: cortou salários e pensões, que é a forma mais segura de garantir corte de despesa. Vítor Gaspar faz bem em assegurar o cumprimento das metas mas isso não pode significar a desistência do que Pedro Passos Coelho prometeu e ainda não fez.


E, já agora, se o primeiro-ministro está tão cismado em encontrar os responsáveis políticos do desmando actual, devia actuar junto do mesmo sistema que o fez e fará medrar: o político. O financiamento partidário. O número de deputados. A reforma administrativa, que tem de ir mais longe. Não havia alternativa a medidas com este alcance. Mas havia outras medidas possíveis. Teria sido melhor um imposto extraordinário sobre todos os rendimentos e sobre todo o património. É polémico, claro, mas não menos do que cortar salários à Função Pública. O Governo, que está refém da sua própria pressão de cortar despesa, optou por um caminho que corre o risco da demagogia. O Estado não está a reestruturar a Função Pública, está a aniquilá-la.


O país, no estado que está, precisa da "boa" administração do Estado e é esta que está a enxotar. Arrisca-se a ficar apenas com a "má", que é a comparativamente cara e improdutiva. A todos pede agora compaixão: que apesar de tirar quatro salários dos próximos 48, seja missionário. A salvação do Estado deixou, pois, de ser uma questão de governação. Passou a ser uma questão de fé. Que a fé nos proteja.”