segunda-feira, 25 de abril de 2016

25 de Abril. Sempre! "Vamos fazer o que ainda não foi feito!"


Intervenção na Sessão Solene da Câmara Municipal de Mêda
 Comemorações do 25 de Abril – (25.04.2016)



Quarenta e dois anos depois da Revolução de Abril!

E agora? Onde Estamos e para onde vamos? Estas são as questões que nos devem inquietar, mas não menos importante é recordar o ponto de partida. Sabermos de onde viemos, em que país vivíamos em 1974. Que país era esse, que circunstâncias eram essas… Há quem possa ficar preso à história e ficar apeado ao passado, a ignorância ou mesmo o desprezo de não queremos saber de onde viemos, por vezes, faz-nos caminhar para recriar uma velha história com um final nefasto!

Mas falar de Abril é falar de ruptura, de revolução entre dois mundos… De um país cinzento, sem oportunidades, de um Portugal onde não havia o mais elementar de uma sociedade: DEMOCRACIA! Esse mesmo país que mandava os seus jovens para Ultramar com uma arma na mão para lutar numa guerra fratricida, de mães que viam os seus filhos partirem para não os verem mais regressar. 
Vivíamos numa redoma onde se cultivava a narrativa do “Orgulhosamente sós”. Um país onde o analfabetismo era norma, onde não havia direito à Saúde, onde os índices de pobreza eram enormes, onde a miséria era o “Pão-nosso de cada dia!”, um país que não permitia o laicismo, que promovia a discriminação de género, onde as mulheres eram submissas a uma sociedade patriarcal, onde o direito ao voto era somente para alguns. Um Portugal que não apostava na ciência e muito menos na investigação. Um país com uma agricultura rudimentar e arcaica, um país isolado do resto da Europa. Com uma enorme exploração infantil no mundo laboral. Um Portugal sem glória, sem esperança, uma nação a definhar.

Mas foi com a Revolução militar, ao comando dos capitães de Abril, que “emergimos dessa noite e do silêncio” para um novo mundo, um mundo que permitiu abrir outras portas, que o saudoso Ary dos Santos declamou com eloquência e efervescência, fazendo acreditar, que:

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade. 


Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena (...)


Foi então, que pudemos escrever uma nova história, a esperança de um outro mundo, um novo despertar, uma nova era, a utopia apontava um admirável mundo novo sem pré-condicionalismos, sem discriminações e com igualdade de oportunidades para todos. Com mais ou menos utopia esse caminho foi-se fazendo e tanto se fez que permitiu que Abril abrisse portas a outras revoluções, contagiando os nossos vizinhos Espanhóis e a diáspora da América Latina.

Não podemos esquecer que corremos então o risco de nos termos deixado contagiar com um outro regime totalitário, mas fez-se luz na “fonte luminosa” e a democracia imperou. Os portugueses disseram Sim às eleições livres, onde homens e mulheres puderam participar livremente. Depois, seguiram-se anos de grande turbilhão e de amadurecimento.

Feita a “revolução dos cravos “com o fim de uma ditadura de 48 anos, imperou a vontade de um povo que se quis erguer, contra o totalitarismo e o sectarismo de décadas. Esse povo foi capaz de se modernizar e de se adaptar a novos desafios, foi capaz de criar um Sistema Nacional de Saúde gratuito e universal, de fazer surgir uma Escola Pública para todos, que combateu os níveis de iliteracia que nos envergonhavam e nos colocavam na cauda da Europa e do mundo, obtivemos um sistema contributivo da Segurança Social que permitiu dar dignidade a todas e a todos os portugueses.

Abril, trouxe a liberdade individual e colectiva, oficializaram-se os partidos e com a sua diferença ideológica alcançámos a diversidade política. Muito se discutiu e muitas vezes disseram: “olhe que não! Olhe que não!”. Mas foi nessa diferença que os partidos amadureceram, se criaram, e se tornaram o baluarte da Democracia. Mas o seu amadurecimento pode putrificar-se, se não forem capazes de se adaptarem aos novos tempos e se não souberem escutar o cidadão comum.

A democracia permitiu reclamar, permitiu exigência, permitiu sonhar, e possibilitou também um olhar atento para o exercício mais elementar num estado de direito – o respeito interinstitucional e a sua distinta separação de poderes. É neste equilíbrio que se respira independência e autonomia… é certo que não há donos da democracia, pois ela embriaga-se na soma das partes e reveste-se no todo. A democracia é para todos, mas para que seja efectivamente de todos é necessário sabê-la respeitar e implementar diariamente os valores de Abril, que se encontram explanados na nossa Constituição.

Respeitar a Constituição é louvar a Democracia!

As diferenças ideológicas vêm de longe e, se de um lado temos uma esquerda que lutou para que o espírito de Abril permaneça vivo, e que todos os dias o estado garanta mais equidade, mais justiça social, mais oportunidades; de um outro lado, encontra-se uma direita, que chora pelas estatizações do período pós-revolucionário e que vive do revanchismo que Abril prejudicou o crescimento da economia.

Há quem possa encontrar no chauvinismo a cura para um povo e pensar que é a forma mais próspera de fazer crescer um país. Desengane-se quem quiser trilhar esse caminho, esse será o precipício para o País de há 42 anos atrás. O Portugal da miséria, da guerra e da ditadura! Com todas as imperfeições da própria democracia, não descurando da citação de Churchill: ”A democracia é a pior forma de governo imaginável, à excepção todas as outras que foram experimentadas”, mesmo com as devidas prudências, a democracia é o fermento da cidadania, da garantia de um estado de direito.

Hoje somos um país da União Europeia, onde há maior respeito pela dignidade do trabalho, pelos sindicatos e pela democracia pluralista, somos mais cosmopolitas, mais poliglotas, mais qualificados e mais bem preparados.

Mas há um outro lado que não podemos escamotear, o lado da falta de oportunidades de emprego, da precariedade laboral, do desprezo que certos actores políticos fazem da cultura… Se a cultura é tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza, então muito se acrescentou nestes 42 anos de democracia, da Expo 98 ao Porto 2001, do Euro 2004, do CCB a Serralves, e tantos outros espaço culturais de referência internacional.

Da Europa vieram dinheiros para asfaltar, criar o saneamento básico, modernizar os espaços públicos e privados, criaram-se dependências e novas vias rodoviárias, Lisboa ficou mais perto do resto do país, mas neste país criaram-se assimetrias entre o Litoral e o Interior, e essas vias de comunicação levaram o mais importante que restava neste Interior, as PESSOAS! As terras fazem-se grandes com pessoas, sem pessoas o exercício político torna-se inútil e desinteressante!

Cabe ao poder Central contrariar esta triste tendência e finalmente conceptualizar-se uma promessa de há muito ”Coesão Territorial”. A recente unidade de missão para valorização do Interior é um sinal positivo que aponta para uma nova esperança para este território e nos dá algum fôlego e uma réstia de alento.
Nesta minha humilde descrição sobre o que foi a revolução de Abril, não pronunciei uma única vez a palavra que é a semente e o mais de grandiloquente desta revolução: A LIBERDADE!

Sem Liberdade, não se concretizam os 3 D´s da Revolução:

Descolonizar; Democratizar e Desenvolver! 

Contudo, chegou o tempo de acrescentarmos o quarto D.

DESCENTRALIZAÇÃO!

Por isso: Vamos fazer o que ainda não foi feito… já que Abril nos ensinou que nenhuma realidade, por mais negra que seja, é eterna ou imutável. Para os socialistas, o 25 de Abril será sempre o dia da utopia, que se cumpre lutando por mais prosperidade, justiça social, solidariedade, liberdade e democracia. Façamos jus aos ideais! Concretizemos Abril!


Viva a Democracia!  Viva o 25 de Abril! Viva a Mêda! Viva Portugal! 

segunda-feira, 21 de março de 2016

Dia Mundial da Poesia

Porque hoje se comemora o Dia Mundial da Poesia, veio-me à memória o seguinte episódio. Tinha os meus 13 anos, numa aula de Português, com a cabeça distante, ouvi a seguinte pergunta: O que é ser poeta?

Respondi de forma repentina e irreflectida:

- “São aqueles que vêem tudo a rimar!”; a resposta pode não ter sido feliz e pouco ortodoxa, mas o sentido estava lá!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Freud explica o Carnaval

Segundo Freud, a nossa mente é como uma casa em que vivem três habitantes. No térreo, mora um sujeito simples e meio atucanado, chamado Ego. Ele não é propriamente o dono da casa, mas cabe-lhe pagar a luz, a água, o IPTU, além de varrer o chão, lavar a roupa e cozinhar. Estas tarefas fazendo parte da vida cotidiana, Ego até não se queixaria. O pior é ter de conviver com os outros dois moradores.
No andar superior, decorado em estilo austero, com estátuas de grandes vultos da humanidade e prateleiras cheias de livros sobre leis e moral, vive um irascível senhor, chamado Superego. Aposentado – aos pregadores de moral não resta muito a fazer em nosso mundo – Superego dedica todos os esforços a uma única causa: controlar o pobre Ego. Quando liga, se lembra de alguma piada boa e ri, ou quando o Ego se atreve a cantar um sambinha, Superego bate no chão com o cetro que carrega sempre, exigindo silêncio. Se Ego resolve trazer para casa uma namorada ou mesmo uns amigos, Superego, de sua janela, advjerte: não quer festinhas no domicílio.
No porão, sujíssimo, mora o terceiro habitante da casa, um troglodita conhecido como Id. Id não tem modos, não tem cultura e na verdade mal sabe falar. Em matéria de sexo, porém, tem um apetite invejável. Superego, que detesta estas coisas, exige que o Ego mantenha a incoveniente criatura sempre presa. E é o que acontece durante todo ano.
No Carnaval, porém, Id se solta. Arromba a porta do porão, salta para fora e vai para a folia, arrastando consigo o perplexo Ego que, num primeiro momento, resiste, mas depois acaba aderindo. E aí são três dias de samba,j bebida, mulheres.
Quando volta para casa, na quarta-feira, a primeira pessoa que vê Ego é o Superego, olhando-o fixo da janela do andar superior. Ele não precisa dizer nada, Ego sabe que errou. Humilde, enfia-se em casa, abre a porta do porão, para que o saciado Id retorne a seu reduto, e aí começa a penitência, que durará exatamente um ano.
De vez em quando, Ego tem um sonho. Ele sonha que os três fazem parte de um mesmo bloco carnavalesco, e que, juntos, se divertem a valer – o Superego é, inclusive, o folião mais animado. Mas, isto é, naturalmente, sonho.

Autor: Por Moacir Sciliar

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Adeus, Aníbal


Um Texto de Tiago Matos Silva, que me revejo na integra!

Nascido em Julho de 1976, sou governado um dia pelo Pinheiro de Azevedo (VI governo provisório), três meses pelo Nobre da Costa (III governo constitucional), nove meses pelo Mota Pinto (IV governo constitucional), sete meses pela Maria de Lurdes Pintassilgo (V constitucional), um ano pelo Sá Carneiro (VI constitucional), dois anos e cinco meses pelo Pinto Balsemão (VII e VIII constitucionais) e quatro anos e meio pelo Bochechas (I, II e IX governos constitucionais)... De ti Aníbal, entre governos minoritários, governos com maioria absoluta e presidências da República levo 20 anos!! Eu tinha 9 anos mal acabados quando chegaste a São Bento e vou ter quase 40 quando finalmente saíres de Belém. Eu não me lembro (os meus amigos mais velhos riem-se) dum tempo antes de ti Aníbal!

E não é como que não tenha o que te agradecer: a facécia da rodagem do carro à Figueira da Foz, o fim da indústria e da agricultura e da pesca trocados pelo alcatrão das autoestradas dos amigos da Mota-Engil, o “ai eu não sou político” mais espesso desde o tempo do Botas, o Poço de Boliqueime passado a Fonte e o “nunca me engano e raramente tenho dúvidas”, os hemofílicos cheios de SIDA da Dra. Leonor e as moscambilhas do mano Zézé, a porrada na ponte e a que levei à porta do parlamento porque não queria fazer a PGA (veio o teu ministro da polícia chamar-lhe “acção meritória” no telejornal à noite), as propinas e o porteiro do Hospital de Faro despedido por te ter tratado como um mero mortal, a pensão (recusada ao Salgueiro Maia mas) atribuída aos pides, o coqueiro, o bolo-rei e a “Mariani”, o papá gasolineiro e o genro produtor, a medonha foto retocada das presidenciais e a patranha das escutas do Palácio de Belém, o “Independente” e o “Inimigo Público” (só com garras quando o governo é PS) e os orçamentos inconstitucionais, a pensão do Banco de Portugal e as “forças de bloqueio” e o consenso e a solidariedade institucional e a solidez do grupo Espírito Santo, o Dias Loureiro (o teu meritório ministro da polícia) e o Duarte Lima e o Ferreira do Amaral e a Manuela Ferreira Leite e o Durão Barroso e o Miguel Cadilhe e o Marques Mendes e o Isaltino Morais (e o sobrinho) e o Valentim Loureiro e o Luís Filipe Menezes e o Pedrinho Passos Coelho e o Oliveira e Costa e o resto da escumalha do BPN... e a Maria, a Maria, a Maria, a Maria e o ar dela e os presépios e o estilista do Fundão e a Kátia Guerreiro a cavalo e a dor de corno dos 50 dias... obrigado Aníbal, mil vezes obrigado.

Pai do Monstro, nossa Thatcher sem tomates, nota de rodapé da História, sonso mil vezes sonso... vai ser uma alegria contida e sossegada cá em casa ver-te (mais) chupado dos ossos e (ainda mais) esclerosado na bancada dos próceres do regime nas festarolas da Assembleia, silencioso e finalmente total e absolutamente irrelevante; sempre é menos triste que ver-te a escorrer despeito pelos salões mal decorados de Belém, a hesitar na leitura dos papelinhos que sabe deus quem te enfiou nos bolsos... não te preocupes Aníbal, está quase quase a acabar.

Não te preocupes Aníbal, estes meses finais vamos fazer de conta que já foste, que já não há ninguém em Belém, vamos fingir que já não existes. Não te preocupes Aníbal, nós ajudamos-te a terminar o mandato com dignidade... ignorando-te.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Uma Carta ao Pai Natal

Uma Carta ao Pai Natal aos 40 anos.

Decerto, que todos nós, nas nossa infâncias escrevemos cartas ao Pai Natal, os que as não puderam escrever, acabaram por idealizar um rol mais ou menos vasto de preces lúdicas, pessoais ou até de segurança.

No nosso imaginário infantil, havia desejos lúdicos, projecções e expugnações pessoais… a conquista de um beijo da miúda mais gira da turma, e quiçá a possibilidade em jogar na equipa dos mais velhos no recreio da escola ou que o matulão da turma, fosse o nosso protector e nos protegesse dos nossos inimigos!

O que todos desejávamos era a felicidade pessoal e por consequente os amigos também seriam contemplados! Por falar em amigos não esqueço aqueles que convivi na Praça (casa dos meus avós), os do Terreiro, os da Rua do Café dos meus pais e até os da Portela da Devesa que eram astutos na luta das fisgas… Era assim que vivíamos no inicio da década de 80! Recordo-me da primeira carta que escrevi ao Pai Natal, fi-la com o meu amigo Nuno (Cholas), escrevemos uma data de folhas sobre a mesa da cozinha na casa onde nasci, a casa dos meus avós. Pedimos tanta coisa, tantos brinquedos, tantos jogos e quase de certeza o desejo de o Sporting poder ser Campeão Nacional. A história acabou mal, a mãe do Nuno, fartou-se de o procurar, não sabia onde ele andava e terminou com umas palmadas…o nosso plano falhou e não enviamos as cartas, não por falta de selos, mas porque perdemos a morada do Pai Natal.

As cartas ao Pai Natal serviam para projectar o nosso inconsciente com imensa fantasia, a fantasia de acreditar que teríamos tudo ao longo da nossa vida: Amigos, amigos, amigos e mais amigos e a família. Mais tarde a ordem trocou-se e aí o Pai Natal era coisa do passado, tão passado que já sofria de Alzheimer e já se tinha esquecido da nossa existência. Nessa altura o que desejávamos eram roupas de marca, umas miúdas giras para sair, uma scooter, uns livritos, uns CD`s, umas noitadas sem hora para chegar a casa e, se possível, tirar umas notas porreiras para que os cotas não nos chateassem a tola.

Depois os desejos passaram a ter uma natureza mais académica, podermos entrar na Universidade, ter um carro para as noitadas, umas férias com os amigos e dinheiro na algibeira para que nada nos faltasse… depois, vieram os trinta e agora, que já cá moram os quarenta o que posso pedir ao Pai Natal? Como pedir não paga imposto, vou pedir, aquilo que antes parecia menos importante: Saúde e Saúde! A Saúde para que a vida permita todo o remanescente, o suficiente para que este País possa dar oportunidades aos mais jovens e às gerações que sentem o seu futuro hipotecado. Um país que não viva para pagar dividas à Banca, mas que possa bancar uma escola pública, um sistema nacional de saúde gratuito, um acesso à Cultura para todos e que aqueles que nada têm possam viver com o mínimo de dignidade humana. Um país menos homofóbico e menos xenófobo, um país que não discrimine aqueles quem têm uma orientação sexual ou ideológica diferente da nossa.

Um país desenvolvido que não mande aos seus jovens emigrar, que não dê oportunidades e regalias só para aqueles que mais têm!

Se esse país se transformar e se tornar real para todos, ficarei saciado e repleto de esperança que as minhas filhas possam acreditar que o Pai Natal é um fixolas!


Para terminar a minha primeira carta ao pai natal, escrita de forma digital, faço o apelo para que ele me envie o endereço pessoal, para que desta vez, a possa ler e assim não seja extraviada. Aguardo ansiosamente pelo teu e-mail, pois amanhã, já é dia de Natal!

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Uma história do 1º de Maio de 1974



Há uma história que me contaram há muitos anos sobre o 1º de Maio de 1974 em Lisboa, que não esqueço, e gosto de a contar nesta altura do ano.

Depois da revolução do 25 de Abril, a grande manifestação popular deu-se nas comemorações do 1º de Maio, então os vários partidos preencheram murais, com palavras de ordem, como exemplo: PCTP/MRPP " O 1º de Maio é Vermelho", o PCP: "O 1º de Maio é Revolução", o PS: " O 1º de Maio é o dia do Trabalhador", etc.

Então, no meio de tantas mensagens, há uma faixa que se destaca, a dos Monárquicos, talvez liderada pelo Prof. Ribeiro Teles que dizia "O 1º de Maio é Feriado!".

Em suma, esta história demonstra o valor da democracia!

PS- Numa altura em que as pessoas se deslocavam por vontade própria e havia poucos autocarros!!!

quinta-feira, 26 de março de 2015

A ESTRANHA

A ESTRANHA 
(autor desconhecido)

Alguns anos após o meu nascimento, o meu pai conheceu uma estranha, recém-chegada à nossa pequena cidade.
Desde o início que o meu pai ficou fascinado com esta encantadora personagem e, de seguida convidou-a a viver com a nossa família.

A estranha aceitou e, desde então, tem estado connosco.

Enquanto eu crescia, nunca perguntei sobre qual o seu lugar na minha família; na minha mente jovem ela já tinha um lugar muito especial.
Os meus pais eram professores... a minha mãe ensinou-me o que era bom e o que era mau e o meu pai ensinou-me a obedecer.
Mas a estranha era a nossa narradora.
Mantinha-nos enfeitiçados durante horas com aventuras, mistérios e comédias.
Sempre tinha respostas para qualquer coisa que quiséssemos saber de política, história ou ciência.

Conhecia tudo do passado, do presente e até podia predizer o futuro!
Levou a minha família ao primeiro jogo de futebol.
Fazia-me rir e fazia-me chorar.
A estranha nunca parava de falar, mas o meu pai não se importava.
Às vezes, a minha mãe levantava-se cedo e calada, enquanto nós ficávamos a ouvir o que tinha para dizer, mas só ela ia à cozinha para ter paz e tranquilidade. (Agora pergunto se ela teria rezado alguma vez para que a estranha fosse embora).

O meu pai conduzia o nosso lar com certas convicções morais, mas a estranha nunca se sentia obrigada a honrá-las.
As blasfémias, os palavrões, por exemplo, não eram permitidos na nossa casa… por nós, pelos nossos amigos ou por qualquer um que nos visitasse.

Entretanto, a nossa visitante de longo prazo usava sem problemas a sua linguagem inapropriada que às vezes queimava os meus ouvidos e que fazia o meu pai se retorcer e a minha mãe se ruborizar.
O meu pai nunca nos deu permissão para beber álcool. Mas a estranha animou-nos a tentá-lo e a fazê-lo regularmente.
Fez com que o cigarro parecesse fresco e inofensivo, e que os charutos e os cachimbos fossem especiais.

Falava livremente (talvez demasiado) sobre sexo. Os seus comentários eram às vezes evidentes, outras sugestivos, e geralmente vergonhosos.
Agora sei que os meus conceitos sobre relações foram influenciados fortemente durante a minha adolescência pela estranha.
Repetidas vezes a criticaram, mas ela nunca fez caso dos valores dos meus pais, mesmo assim, permaneceu no nosso lar.
Passaram-se mais de cinquenta anos desde que a estranha veio para a nossa família. Desde então mudou muito; já não é tão fascinante como era no princípio.

Não obstante, se hoje pudesse entrar na guarida dos meus pais, ainda a encontraria sentada no seu canto, esperando que alguém quisesse escutar as suas conversas ou dedicar o seu tempo livre a fazer-lhe companhia...
O seu nome? Ah! O seu nome…

Chamamos-lhe de TELEVISÃO!
É isso mesmo; a intrusa chama-se TELEVISÃO!
Agora tem um marido que se chama Computador, um filho que se chama Telemóvel e um neto com o nome Tablet.
A estranha agora tem uma família. Será que a nossa ainda existe?