quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Urgentemente, 2021!

E por vezes”


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites   não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos


De: David Mourão-Ferreira

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

23 de dezembro, memórias...

A esta hora estará meio mundo a ver a bola. Tudo ONline no encontro Benfica x Porto mas, no meio desse epifenómeno futebolístico, veio à memória a minha infância, o dia 23 de dezembro, dia em que ia para casa dos meus avós maternos fazer as filhós, e não filhoses como a maioria dos beirões pronunciam.

A esta hora estava o meu avô Joaquim na loja a escolher os melhores paus/cepos para a lareira, que iriam acender as melhores brasas, para que a panela/frigideira de ferro, cheia de óleo e azeite, recebesse a melhor massa para as belas filhós.

 O melhor de todo este momento era o convívio familiar. Vinha a prima Gininha e todos os familiares mandar o seu palpite:

“Antoninha a massa está grossa! Oh Sr. Joaquim o lume está muito forte! Oh Claudete não sei se vais ter sorte! “

Bem, eu esperava pelo momento de deitar o açúcar nas filhós, mas o melhor estava para o fim. A noite tão saborosa terminava com a última massa, para se fazer o famoso boneco com cabeça tronco e membros e uma grande “pila”, sem ela o boneco não estava pronto!

São estes momentos que me fazem recordar os melhores Natais!

Mas hoje é dia de se fazer cá em casa as melhores Rabanadas!

As rabanadas da minha mulher são provavelmente as melhores Rabanadas do Mundo!

Ao som de algumas músicas natalícias vamos dar início….porra marcou o Porto! Por falar em Porto venha o vinho do Porto para a feitura das Rabanadas!

As minhas filhas leem a Noite de Natal de Sophia de Mello Breyner  Andresen!


sábado, 28 de novembro de 2020

PSD DesaCHEGAdo da Democracia!

Incoerências, neste 25 de novembro, dia em que se comemoram 40 anos de libertação dos extremismos na democracia portuguesa, o PSD decide evocar a efeméride legitimando o CHEGA como seu aliado politico! 


sábado, 21 de março de 2020

Pedro Barroso (RIP)

Esta semana, ficámos mais pobres... perdemos um dos melhores, Pedro Barroso.


Com alguma influência do Tio João, muito cedo comecei a ouvi-lo. 

Aprendi a gostar das suas músicas, mas foram as palavras, as letras das suas melodias que percebi e entendi que eram mais do que um conjunto de acordes, eram palavras de verdade! sentidas, eloquentes e efervescentes! 


Numa fase tão difícil e de tamanha crueldade, ouçamos Pedro Barroso!!!  tenhamos a "Esperança" na Humanidade.


ESPERANÇA

Se quiseres partir amanhã

eu paro o mundo

com facilidade assim

com esta mão

e então descobriremos

o mais profundo fundo que há no mundo

que é no irmos fundo às coisas

que há razão

de verdades consumadas me consomem

de falácias bem montadas me alimentam

mas meu filho mora o reino do futuro

que é mais duro

e não vai ser com palavras

que o contentam



Se a morte lenta te rebenta sob a pele

a cada dia

e se no teu braço apenas sentes a força

de um cansaço organizado

mas manténs na tua fronte a dúvida

e o gosto pelo longe e a maresia

e se sentes no teu peito de criança

a alma de um sonho amordaçado

se quiseres partir amanhã

eu paro o mundo

com facilidade assim

com esta mão

e então descobriremos o mais profundo

fundo que há no mundo

que é no irmos fundo às coisas que há razão



(iste mundus furibundus falsa prestat gaudia

quia fluunt et decurrunt ceu campi lilia

Laus mundana vita vana vera tillit premia

nam impellit et submergit animas in tartara)

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Recomeça... Olá 2020!!!



Recomeça….

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Jorge de Sena - Natal de 1971

Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?...
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Jorge de Sena - Natal de 1971

domingo, 9 de junho de 2019

05.06.2019

Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

Miguel Torga, in 'Diário IV'

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Atenção à navegação!!!


"Demos à PIDE/DGS férias no Vietname". Das frases para a eternidade, do 1º de Maio de 1974!

Depois vieram 45 anos, de:



quarta-feira, 24 de abril de 2019

Salgueiro Maia - 25-04-1974 01.00 am

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«Há diversas modalidades de Estado: os Estados socialistas, os Estados corporativos e o estado a que isto chegou! Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos. De maneira que quem quiser vem comigo para Lisboa e acabamos com isto. Quem é voluntário sai e forma. Quem não quiser vir não é obrigado e fica aqui»

Salgueiro Maia - 25-04-1974 01.00 am

sábado, 13 de abril de 2019

Ler para não esquecer!!!

Alegre, Cavaco e as palavras


As palavras nunca são inócuas, mesmo quando parecem inócuas. As palavras são como setas. Depois de saírem da boca já não voltam para trás. As palavras tanto nos podem tornar melhores e maiores como nos tornar piores e mais pequenos. É por isso que o discurso político é tão importante. É que ele nos pode dar esperança mesmo em momentos muito difíceis ou quebrar-nos o ânimo quando precisamos de lutar.

O que Passos Coelho fez durante o seu mandato foi desmoralizar as tropas. Foi dizer-lhes, dizer-nos, que nós éramos os culpados por o país ter de pedir ajuda internacional. Tinha sido a nossa cupidez, a nossa desbragada vontade consumista, a inconsciência de vivermos acima das nossas possibilidades que nos tinha conduzido ao colapso. Não havia outras razões, não havia outras explicações. Não fôssemos nós a dar azo aos nossos menos nobres sentimentos e nada teria acontecido.

Passos precisava de tropas para o combate que iríamos enfrentar. Mas enquanto nosso general, o que começou por nos dizer é que éramos os culpados pela guerra. E disse-nos mais: que só saíamos disto empobrecendo. Ou seja, disse às tropas que íamos para a guerra – e que a íamos perder. E muitos de nós, demasiados, perderam mesmo: o emprego, os filhos que emigraram, os velhos que morreram por falta de medicamentos, as gravidezes que foram adiadas. Mas perderam sobretudo o ânimo para lutar e conformaram-se, resignaram-se à pobreza, a miséria, ao cinzentismo.

É a esse tema que Manuel Alegre, em entrevista publicada na edição de hoje do “Jornal de Negócios”, volta, não em relação a Passos Coelho, mas em relação a Cavaco Silva. Diz Alegre: “Os discursos do anterior Presidente da República tinham o dom de tornar as nossas almas mais pequenas, eram muito chatos, amarfanhantes, não havia um discurso inspirador, que desse horizonte (…)”. Ora os políticos, sobretudo em tempos difíceis, não nos devem esconder as dificuldades, mas não nos podem cortar a esperança. Winston Churchill fez isso durante a II Guerra Mundial, quando a Inglaterra lutava praticamente sozinha contra a Alemanha de Hitler; Mahatma Gandhi derrubou a dominação colonial britânica sobre a Índia com um discurso pacifista; e Nelson Mandela, apesar de ter passado quase 30 anos preso, manteve sempre a chama da liberdade acesa para o seu povo através das palavras. Infelizmente para nós, durante o programa da troika, nem Cavaco nem Passos fizeram um discurso que tornasse as nossas almas maiores do que são.

Como defende Alegre, Portugal foi feito por soldados, mas também por poetas, antes dos soldados. “Os grandes poetas portugueses tiveram sempre uma expressão cívica e o maior poema político de Portugal são ‘Os Lusíadas’”. E a fronteira entre Portugal e Espanha foi traçada também pela “língua portuguesa consolidada pela expressão poética inigualável de Camões”. Ora, mais do que tudo (e boas políticas e boas decisões ajudavam), o que falhou claramente durante o ajustamento foi um discurso mobilizador e de esperança, que trouxesse ao de cima as melhores características dos portugueses. Mas ele não existiu. Pelo contrário, o que foi proferido tornou-nos mais amargos, mais cínicos, mais mesquinhos, colocou jovens contra idosos, desempregados contra empregados, trabalhadores do sector privado contra trabalhadores do sector público. Não é possível contabilizar quanto nos tornou mais frágeis, mais descrentes, mais inseguros, como pessoas e como país, este tipo de discurso. Mas que tornou, tornou.

E é talvez por isso que está em curso uma revolta das palavras, com a poesia portuguesa a conhecer um novo fulgor, com o aparecimento de muitos e jovens poetas e a confirmação dos consagrados – porque, como diz Alegre, “a poesia é um contrapoder absoluto”. E as palavras dos poetas iluminam-nos e tornam-nos maiores do que somos.

Por (Nicolau Santos, in Expresso, 08/04/2016)

segunda-feira, 4 de março de 2019

Neto de Moura

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Sobre este episódio "ridículo" do Juiz Neto Moura, vem-me à cabeça, em forma de analogia, o caso com mais de 52 anos da edição da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, de Natália Correia, com poemas de vários poetas, desde Ary dos Santos ao Luiz Pacheco... 

Foi então, que em pleno Estado Novo, consideraram um escândalo literário que imediatamente foi apreendido e matéria de julgamento em Tribunal Plenário, acusado de ofender o “pudor geral”, a “decência”, a “moralidade pública” e os “bons costumes”. Foi o preço da liberdade!!! Em relação ao Neto Moura, é um caso de Psiquiatria!!!


" ó subalimentados do sonho! a poesia é para comer"